O modelo de saneamento de Uberlândia voltou ao centro das atenções após a cidade intensificar a recepção de visitas técnicas de diversas regiões do Brasil e até do exterior. Enquanto o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) é apresentado como referência nacional, dados e desafios locais reacendem um debate: o sistema é exemplo absoluto ou ainda enfrenta gargalos relevantes?
Desde 2025, delegações de ao menos 16 municípios brasileiros, além de representantes acadêmicos do Chile, passaram pela cidade para conhecer de perto práticas de gestão, tratamento de água e esgoto e iniciativas de sustentabilidade.
O que Uberlândia mostra ao Brasil
Durante as visitas, o Dmae apresenta uma estrutura considerada moderna e em expansão. Entre os principais pontos destacados estão:
• Estações de Tratamento de Água e Esgoto com processos automatizados
• Sistema Capim Branco, referência no controle operacional
• Laboratório de hidrometria e monitoramento em tempo real
• Aterro sanitário e programas de coleta seletiva
• Investimentos superiores a R$ 150 milhões em obras de esgotamento
Além disso, o município tratou mais de 17,5 milhões de m³ de esgoto apenas nos primeiros meses de 2025, reforçando a capacidade operacional do sistema.
Outro indicador frequentemente apresentado é a redução de problemas operacionais: ocorrências de entupimento de esgoto caíram cerca de 19% entre 2024 e 2025.
Reconhecimento que ultrapassa fronteiras
O interesse internacional também chama atenção. Instituições do Chile visitaram estruturas ligadas à sustentabilidade e eficiência energética, enquanto cidades de estados como São Paulo, Goiás, Santa Catarina e Bahia enviaram equipes técnicas para intercâmbio.
Na prática, Uberlândia passou a funcionar como uma espécie de laboratório aberto de políticas públicas em saneamento.
Mas nem tudo é consenso
Apesar do discurso de excelência, alguns indicadores e realidades locais colocam o modelo sob análise crítica:
Consumo de água acima do recomendado
Uberlândia registra média de 257 litros por habitante por dia, mais que o dobro do recomendado pela ONU, que é de 110 litros.
Desigualdade no acesso
Relatos apontam que áreas periféricas ainda enfrentam desafios relacionados à infraestrutura e saneamento básico, evidenciando diferenças dentro da própria cidade.
Investimento abaixo do ideal
Dados indicam que o investimento per capita em saneamento ainda está abaixo do considerado ideal para expansão e manutenção do sistema.
Entre eficiência e percepção da população
Pesquisas indicam altos índices de aprovação do Dmae, especialmente na qualidade da água e regularidade do abastecimento.
Por outro lado, áreas como drenagem urbana apresentam níveis de insatisfação mais elevados, mostrando que nem todos os serviços acompanham o mesmo padrão de eficiência.
O que está por trás desse cenário
Especialistas apontam que o caso de Uberlândia reflete uma realidade comum no Brasil:
Avanços técnicos convivendo com desafios estruturais
Boa gestão operacional, mas pressão do crescimento urbano
Eficiência em áreas centrais, com desigualdade em regiões periféricas
Conclusão
O crescimento do interesse nacional e internacional pelo saneamento de Uberlândia reforça o protagonismo do município no setor. Ao mesmo tempo, os próprios números mostram que ainda há espaço para evolução.
Entre vitrine e realidade, o modelo da cidade expõe um ponto central: ser referência não significa ausência de problemas, mas sim a capacidade de enfrentá-los enquanto os holofotes estão acesos.