Frutal Tempestade invisível
Triângulo Mineiro ainda sente os efeitos da pandemia na saúde mental
Quando a Covid-19 varreu o planeta, deixou marcas que não se medem apenas em óbitos ou vítimas físicas: deixou um rastro de adoecimento mental — e em cidades do Triângulo Mineiro esse rastro ainda pulsa, muitas vezes às margens do olhar público.
13/10/2025 09h15
Por: Redação
No Triângulo, a estrutura de saúde mental convive com a herança silenciosa da crise pandêmica. A Secretaria Estadual de Saúde já reconhece que esse enfrentamento exige uma rede articulação — Unidades Básicas, CAPS, equipes de rua — para cuidar não só dos casos graves, mas também da dor latente que se manifestou depois das ondas de infecção.  
 
Abraçando os números mais visíveis: entre 2019 e 2024, a região registrou 4.725 internações por transtornos mentais e comportamentais (inclusive risco suicida, comportamentos disruptivos e uso de álcool) segundo o SUS mineiro.   A proporção dessas internações ligadas ao risco de suicídio foi de aproximadamente 35%.   Isso indica que nem todo sofrimento fica só no consultório: muitos chegam ao ponto extremo de internação.
 
Ainda assim, nem sempre esses números pintam o todo: há muitos que sofrem sem encaminhamento, sem diagnóstico ou sem registro formal. Nos municípios menores, o problema costuma ser invisível até a emergência.
 
O peso da desigualdade regional
 
Uma das feridas mais agudas é a concentração de profissionais especializados em certas microrregiões de Minas — e o vazio assistencial em outras. Um estudo do Tribunal de Contas de Minas mostrou que, em 2023, algumas microrregiões tinham taxas de psiquiatras por 100 mil habitantes próximas a 7 ou 8 (como Mantena, Barbacena), enquanto outras ficavam abaixo de 2.   Ou seja: depender de onde você mora no estado pode determinar se você consegue atendimento ou se fica engolido pelo descaso.
 
No Triângulo, ainda que cidades maiores como Uberlândia ou Uberaba concentrem recursos, as cidades médias e pequenas enfrentam escassez de especialistas, equipes multiprofissionais e serviços de continuidade. Esses “buracos” territoriais tornam quase impossível o cuidado regular para quem tem depressão persistente, transtorno bipolar, ansiedade grave ou sequelas pós-Covid.
 
A pandemia como catalisador de um impasse já latente
 
Antes da Covid, o Brasil já enfrentava lacunas, estigmas e descasos. A pandemia, porém, ativou variáveis de estresse brutais: medo, perda, luto, isolamento social, insegurança econômica. Para profissionais de saúde, o calvário foi direto: plantões estendidos, mortes entre colegas, falta de equipamentos, sobrecarga emocional. Relatos qualitativos colhidos em estudos mostram ansiedade crônica, exaustão, sensação de impotência, angústia intensa entre profissionais que permaneceram na linha de frente.  
 
O que muitos passaram a chamar de “adaptação pós-trauma” ainda não tem suficiente estrutura de apoio local. Quem voltou ao trabalho fisicamente pode continuar lutando com pensamentos intrusivos, fadiga mental, lapsos de atenção — sem que isso seja visível ou compreendido por colegas, chefias ou gestores.
 
Em municípios mineiros menores, processos de reestruturação da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) estão em curso, mas enfrentam dificuldades de logística, financiamento e articulação política. Um estudo de caso de um município interiorano de Minas apontou que o processo de redesenho da RAPS envolveu diagnóstico, discussão municipal e construção gradual, mas conviveu com resistências e limitações técnicas ao longo dos anos.  
 
Quem bate mais forte e quem silencia
 
Em levantamentos epidemiológicos de municípios do interior de Minas, observa-se que:
• A maioria dos atendimentos em saúde mental são de mulheres (por volta de 60%)  
• Faixa etária predominante: 20 a 39 anos  
• Diagnósticos mais comuns: transtorno de ansiedade (~39%) e depressão (~35%)  
• Medicamentos prescritos: antidepressivos (63,6% dos casos) e benzodiazepínicos (83,8%)  
• Encaminhamentos: em 95% dos casos para psiquiatria, apenas 5% para psicologia  
 
Esse padrão sugere que, muitas vezes, o caminho de cuidado tende a priorizar medicação e atendimento médico, na carência de redes de suporte psicossocial mais contínuo.
 
Em Minas Gerais como um todo, o boletim epidemiológico revela que a violência autoprovocada (tentativas de suicídio) aparece nas notificações com destaque entre mulheres jovens, especialmente na faixa de 10 a 19 anos.   O cenário em nossa região não foge desse perfil: jovens suscetíveis ao impacto do isolamento, da desintegração social e da crise econômica.
 
Além disso, Minas está entre os estados com alta taxa de suicídio: é reportado como o segundo estado com maior número absoluto de suicídios no país, segundo matérias que cruzam dados do DataSUS e especialistas locais.  
 
No dia a dia: rostos, travessias, rupturas
 
Imagine uma jovem universitária de Uberlândia: ao voltar ao campus após o isolamento, percebe que já não lembra mais do “ritmo” das aulas, sofre com insônia e crises de ansiedade — mas a UBS não tem psicólogo disponível, ou o prazo para atendimento ultrapassa semanas. Imagine também o funcionário de shopping em Araguari: trabalhou na retaguarda no pico da pandemia, perdeu colegas, viveu incertezas e agora lida com cansaço emocional que nem ele sabe nomear.
 
Esses retratos estão circulando com frequência nos bastidores dos serviços públicos, nas rodas entre psicólogos e gestores municipais, nos relatórios incipientes. Eles denunciam que não estamos falando de “algo residual” — estamos lidando com consequências crônicas.
 
Em muitas cidades do Triângulo, os CAPS são poucos ou com estrutura limitada. O desafio de manter equipes, verba regular e oferta contínua é constante. Quem precisa do cuidado regular pode acabar “cortado” após a crise inicial ou depender de deslocamentos a cidades maiores.
 
Caminhos para aliviar a coisa e sem milagre
 
A dor mental não se resolve de golpe, mas caminhos reais podem ser traçados:
1. Atingir a atenção primária como porta de acesso — qualificar equipes da UBS para escuta inicial, triagem e encaminhamento rápido, reduzindo o caminho para quem busca apoio.
2. Criar linhas específicas para pós-Covid mental — centros de reabilitação cognitiva, grupos de apoio e reintegração profissional para quem carrega sequelas psicológicas prolongadas.
3. Expandir espaços de convivência, cultura e movimento — oficinas, rodas comunitárias, arte-terapia, esportes como complemento ao cuidado clínico.
4. Estabilizar o capital humano — incentivos para fixar psiquiatras, psicólogos, terapeutas em cidades menores; plano de carreira; apoio técnico remoto (telepsicologia).
5. Transparência e dados locais — cada município do Triângulo precisa tabular e tornar públicos os dados de suicídio (SIM), notificações de lesão autoprovocada (SINAN) e atendimentos de saúde mental; isso fortalece planejamento e controle social.