Jornalista Walter Farnezi - Especial para o Triângulo Notícia.
Qualquer uberabense sabe o que é a Fosfértil Fertilizantes, dado ao seu histórico de implantação na década de 1970, sua contribuição ao desenvolvimento econômico para Uberaba e toda a região do Triângulo Mineiro. No entanto, se mencionado a marca Mosaic, pouquíssimas pessoas da vida comum em Uberaba saberiam responder com precisão sobre sua produção e o que a empresa representa no mercado do agronegócio. Porém, qualquer um dos uberabenses poderia abordar questões no tocante ao número de empregos a serem fechados, a queda de movimento financeiro no comércio, nos alugueis, negócios imobiliários, supermercado, entre outros afins da vida de comunidade em consumo, caso fosse surpreendido com a notícia de encerramento ou paralização de suas atividades.
Desde a privatização da estatal Fosfértil, pertencente ao Grupo Petrofértil(uma holding da Petrobrás para o setor), em 1992, passaram mais de 35 anos sob comando de empresas privadas, que à época formavam um consórcio, reunindo Manah, Solorrico, IAP, Fertibrás, Fertiza e Takenaka. Ao longo dos anos, a composição acionária mudou significativamente, com a entrada da Bunge e, posteriormente, a aquisição pela Vale, culminando na atual Mosaic Fertilizantes. Com sede em Tampa, Flórida, a Mosaic é uma produtora e distribuidoras de fertilizantes concentrados de fosfato e potássio, insumos essenciais para produtores rurais.
A Mosaic Company anunciou na semana passada, dia 8 de abril, o encerramento de suas atividades em Araxá, colocando em processo de paralização e posterior encerramento de atividades relativas à produção de fertilizante fosfatados. Ao informar sobre a desmobilização da unidade de produção de fosfato e da paralização também em Patrocínio, o grupo norte-americano não mencionou o impacto causado pelo número de demissões, salientando apenas que as medidas resultariam em reduções no quadro de pessoal. A informação sobre a demissão de mais de 1200 funcionários, no entanto, foi apontada pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Industrias de Extração Mineral, Químicas e de Fertilizantes e Região(SIMA). Em reunião com a direção sindical, a Moisaic adiantou que a desmobilização completa de sua fábrica ocorrerá quando acabar o material estocado, o que está estimado para julho.
No dia seguinte, quinta-feira, foram demitidos 100 colaboradores. Quanto a unidade, instalada no Distrito Industrial III, em Uberaba, onde, em 1977, deu início a implantação da então estatal Fosfertil, a empresa enviou seu representante para a América do Sul à cidade para “tranquilizar” e anunciar seus investimentos em terras raras a partir de 2030. O enviado especial a Uberaba, não trouxe, no entanto, uma informação clara referente a indústria instalada no município. E isso intrigou o setor de produção e mercado consumidor do Fertilizante Fosfatado, além de despertar a curiosidade de quem acompanha a essa produção há cerca de 50 anos desde então chamado de maior polo do produto na América Latina. O fato é que a Unidade de Araxá produz o Super Fosfato Simples(SSP) e a de Uberaba produz o Super Fosfato Triplo(TSP), fertilizantes fosfatados para o fornecimento de fósforo e cálcio ao solo. Os dois tem como principal matéria prima na sua produção o enxofre, o qual o Brasil importa algo em torno de 90%. A diferença entre o fosfatado produzido em Araxá e o de Uberaba é a concentração maior no TSP.
A preocupação maior, está, no entanto, ao preço que pagamos na aquisição dessa matéria prima, que nos custava 80
dólares/tonelada, atingindo agora no início de março a um custo de mais de 500 dólares/tonelada. Isso inviabiliza a produção da Mosaic aqui no cerrado brasileiro. Em uma questão de curto tempo, talvez até meados deste ano, a medida de paralização deve ser anunciada para Uberaba também, onde o volume de enxofre usado é maior. Qual seria o volume de enxofre estocado em Uberaba e porquanto tempo abasteceria a produção? O enxofre, fundamental na indústria de fertilizantes fosfatados, já vinha registrando forte aumento desde meados do ano passado. Com a crise no Oriente Médio, a situação se agravou. Os preços chegaram à casa de 800 dólares a tonelada.
Em nota/release, enviada ao Triângulo Notícia, a Mosaic abordou o encerramento de atividades em Araxá e Patrocínio, admitiu os preços elevados do enxofre, mas não emitiu qualquer pontuação ou mesmo mencionou sua posição sobre a produção na unidade de Uberaba. “A Mosaic prevê que a paralisação das unidades reduza a produção anual de fosfato da Mosaic Fertilizantes em aproximadamente 1 milhão de toneladas. A expectativa é que o impacto no EBITDA(indicador que mede a saúde financeira das empresas) ajustado seja pequeno, devido aos preços elevados do enxofre, sem contar os custos pontuais de desmobilização. Na hipótese de conclusão da venda dos ativos, espera-se que os gastos de capital anuais e as despesas operacionais diminuam em aproximadamente US$ 20 a US$ 30 milhões e US$ 70 a US$ 80 milhões, respectivamente. A empresa prevê registrar um impacto contábil bruto de US$ 350 a US$ 400 milhões no primeiro trimestre de 2026. Desses valores, US$ 275 a US$ 300 milhões referem-se à perda por desvalorização de ativos destinados à venda e a outras baixas contábeis. O restante está relacionado a verbas rescisórias, despesas contratuais e outros custos de desmobilização, tudo isso sujeito a revisões contábeis finais”, destaca a nota.