O acordo de aproximadamente R$ 14 bilhões entre a mineradora brasileira Serra Verde e a norte-americana USA Rare Earth vem ampliando o debate sobre o papel estratégico do Brasil no mercado global de terras raras e também reacendendo discussões sobre o potencial mineral existente em cidades do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba.
A operação, avaliada em US$ 2,8 bilhões, foi confirmada pela própria empresa e envolve a criação de uma cadeia integrada de produção que vai da mineração até a fabricação de ímãs industriais utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos militares, robótica e tecnologias ligadas à transição energética.
Segundo a revista Forbes Brasil, o COO do Grupo Serra Verde, Ricardo Grossi, afirmou que a lógica estratégica da operação “ficou clara desde o início”, justamente pela possibilidade de criar uma cadeia produtiva fora do domínio chinês. Atualmente, a China concentra cerca de 90% do processamento global de terras raras, controlando boa parte da oferta mundial desses minerais considerados críticos.
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China, segundo dados do setor mineral internacional. O interesse internacional nessas reservas aumentou significativamente nos últimos anos por conta da corrida tecnológica mundial e da expansão da indústria de energia limpa.
Embora a mina da Serra Verde esteja localizada em Minaçu, no estado de Goiás, especialistas apontam que regiões de Minas Gerais, especialmente o Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, também possuem grande potencial geológico para exploração de minerais críticos. Municípios como Araxá já são conhecidos internacionalmente pela produção de nióbio e pela presença de minerais estratégicos associados às terras raras.
Além de Araxá, estudos geológicos realizados pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e por instituições ligadas ao setor mineral apontam potencial em áreas de municípios mineiros próximos ao Triângulo, incluindo regiões com presença de fosfato, monazita e outros minerais associados às terras raras.
O avanço desse mercado pode gerar impactos diretos para cidades do Triângulo Mineiro em diferentes áreas da economia. Especialistas do setor avaliam que o fortalecimento da cadeia de minerais críticos tende a impulsionar investimentos em logística, indústria, pesquisa mineral, tecnologia, geração de empregos especializados e infraestrutura energética.
Em cidades como Uberaba e Uberlândia, por exemplo, o crescimento do setor mineral estratégico pode ampliar oportunidades ligadas ao transporte, armazenamento, engenharia, tecnologia industrial e serviços corporativos ligados ao agronegócio e à mineração.
Araxá, que já possui tradição mineral e presença de grandes empresas do setor, aparece como uma das cidades que podem ganhar ainda mais relevância em um cenário de fortalecimento da cadeia brasileira de minerais críticos. O município já ocupa posição estratégica na produção mundial de nióbio e pode atrair novos investimentos relacionados a processamento mineral e tecnologia industrial.
Outro fator que chama atenção é o movimento internacional envolvendo governos e fundos estratégicos. Segundo informações divulgadas pela Reuters e pela Forbes, o acordo entre Serra Verde e USA Rare Earth conta com participação indireta de recursos ligados ao governo norte-americano, dentro de uma estratégia dos Estados Unidos para reduzir dependência da China em minerais críticos.
A expectativa da empresa é atingir cerca de 6,4 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027, podendo representar mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China.
O tema também vem provocando discussões sobre soberania mineral e industrialização brasileira. Representantes do setor defendem que o Brasil avance além da exportação de minério bruto e consiga desenvolver internamente etapas mais avançadas da cadeia, incluindo separação, metalização e fabricação de componentes tecnológicos de alto valor agregado.