Patos de Minas por Walter Farnezi
“OURO PARA O BEM DO BRASIL”: CAMPANHA DA DITADURA VOLTA AO CENTRO DO DEBATE SOBRE MANIPULAÇÃO E PROPAGANDA
Coluna relembra arrecadação milionária promovida após o golpe militar de 1964 e traça paralelos entre influência política do passado e a força das redes sociais nos dias atuais
16/05/2026 09h44 Atualizada há 4 meses
Por: Redação

A história

 

Incrível a velocidade que a modernidade tomou em pouco mais de 150 anos no Brasil, sobretudo em se tratando de comunicação. É bem verdade que o ritmo do avanço em comunicação tomou dimensões avassaladoras com a tecnologia a partir de meados do século passado. No Brasil, a chegada da televisão, em 1950, ofereceu facilidades de entretenimento para acesso ao interior do país e as notícias deixaram de chegar atrasadas aos habitantes mais distantes da capital, Rio de Janeiro, como ocorreu com Uberaba, no Triângulo Mineiro. No passado, em século XIX, ainda no período imperial, informações, inclusive oficiais, chegavam a Uberaba por meio de cartas e malas postais, narra o historiador André Borges Lopes, em “Princesinha da Farinha Podre”.

 

A comunicação

 

Mas em todo o mundo as comunicações eram primitivas. O historiador remonta a 1844 para relatar o resultado do incansável trabalho e pesquisa por dez anos do americano Samuel Morse até inaugurar o telégrafo, uma revolução nas comunicações. No Brasil, a novidade só chegou em 1852 e, cinco anos depois, Rio de Janeiro e Petrópolis estavam ligadas em transmissões pelo então “Código Morse”. Para se ter uma ideia, a abolição da escravatura, em 1888, só chegou a Uberaba oficialmente nove dias depois de sua promulgação. Ainda, segundo André Borges Lopes, houve até mesmo uma certa excitação da população do Sertão da Farinha Podre, quando em 1989, foi inaugurada em Uberaba a estação de trem da Companhia Mogiana e com ela, em uma pequena sala, o aparelho que permitia receber em questão de minutos, notícias vindas de São Paulo, da capital Rio de Janeiro e até da Europa.

 

A modernidade

 

Ao contrário do que ocorria cem anos antes, quando as dificuldades em comunicação levaram o então imperador Dom Pedro II a tomar conhecimento da invasão do exército paraguaio ao Mato Grosso, dando início à Guerra do Paraguai, somente três ou quatro meses depois, em 1964, os meios e veículos informativos foram crucias na consolidação do Governo Militar que se instalara em primeiro de abril daquele ano. Com a chegada e expansão da eletricidade no sertão brasileiro, rádio, jornal e televisão, foram o sustentáculo de consolidação das novas medidas, que a cada dia eram reformuladas, recheadas de novidades repressoras para uma nova organização social, ao que foi intitulado de Revolução.

 

A usurpação

 

Uma nova forma de governar com a participação da chamada Sociedade Civil Organizada, desenvolveu novos caminhos para também envolver o mais comum dos cidadãos e atrair cada vez mais os adeptos a toda forma de contribuição e colaboração ao novo regime que se instalara. Foi assim, que um mês após a tomada pelo poder, uma campanha tomou conta das ruas, praças das cidades brasileiras, grande, médio ou pequeno porte. Todos os meios de comunicação poderiam abrir caminho para a condução dos ditames do novo regime. Uns por livre espontânea vontade. Outros nem tanto ou quase nada, desde que arcassem com as consequências. Por essas e outras, a massificação de campanhas ocorria e corria à vontade pelos sertões brasileiros.

 

O envolvimento

 

O Brasil estava endividado e comprometido nas relações internacionais, bradavam os arautos do poder. O povo acompanhava pelo rádio e pela televisão aqueles momentos que se tornariam logo um novo tempo, mas de escuridão e ataques e caça aos contrários. Era preciso envolver a massa no pagamento da dívida externa, alardeada, porém sem a apresentação de números que sustentassem a investida com campanhas de participação popular. Mas, uma, logo de cara, pouco mais de trinta dias depois daquele 31 de março, o anúncio de uma ação sensibilizou a grande e imensa maioria, tratava-se da campanha “Ouro para o bem do Brasil”. Iniciada menos de dois meses após o golpe Civil-Militar, a campanha tinha como objetivo a “recuperação financeira nacional” apelando para doações individuais. O objetivo seria o pagamento da dívida externa e o combate à inflação. Milhões de pessoas em todo o país contribuíram, doando suas alianças de casamento, relógios, pulseiras, dinheiro, cheques, ou outros objetos de valor.

 

O engajamento

 

Centenas de entidades, clubes de serviços, empresas, multinacionais ou não, lideranças, veículos de comunicação em geral, aderiram ao lançamento da campanha, patrocinada pelos “Diários Associados”. Os pontos de coleta estavam nas ruas e nas praças de todo o país em pouco mais de dois meses. Em Uberaba, havia ponto de coletas de ouro na praça Rui Barbosa e na Dr. Jorge Frange, então praça da Rodoviária, no bairro São Benedito. Muitos deixaram lá, em uma enorme caixa, seu relógio, sua aliança de casamento, sua pulseira, dinheiro em espécie, cheques, ou outros objetos de valor. Uma arrecadação que teria rendido nada mais que três bilhões de Cruzeiros e 1.200 quilos de ouro. Na cidade de Londrina um empresário doou uma enxada de ouro. Décadas depois o objeto foi encontrado em posse da família do ex-presidente Castelo Branco, o primeiro da Ditadura Militar a ocupar a cadeira de comando da Nação. O caso da enxada ganhou projeção nacional com matérias no Jornal O Globo no ano de 1991.

 

O convencimento

 

O escândalo com a revelação desse caso da enxada de ouro foi a última vez que se falou, em cobrança popular, da campanha ou do encaminhamento do montante doado pela população brasileira. Doação, que em troca, o cidadão, recebia um anel de metal onde se lia grafada a frase “eu dei ouro para o bem do Brasil”.  Tenho que admitir que meu pai embarcou nessa e passou o resto da vida xingando o Governo Militar por essas e outras mais pesadas, um dia confirmadas pela Comissão Verdade. A trabalho, em São Paulo, voltou contanto no meio familiar o convencimento ao qual foi vítima na praça da República, doando uma nota de um cruzeiro. Não era nada, em comparação a uma enxada de ouro, mas aderiu ao mais tarde considerado um golpe.

 

 O Influencer

 

Muita evolução tecnológica, muitas facilidades de comunicação e possibilidades na  busca da informação, o que também deu margem às distorções e mentiras, envolvendo o mais inteligente dominador digital nos dias de hoje, pode-se dizer. São mais de 150 anos desde a chegada do “Código Morse” a Uberaba. Hoje, o mais influente dos “influencenres” não faz ideia de como vivia uma população sem uma comunicação tão veloz como hoje, capaz de desmascarar um Romeu Zema poucos horas depois de dirigir ataques ao então companheiro, também pré-candidato à presidência da República, denunciado por se apoderar de 62 milhões de reais, enviados pelo ex-banqueiro preso pela Polícia Federal a propósito de financiar a produção de um filme sobre a história de um ex-presidente. Impressionante a capacidade de manipulação da informação pelas lideranças, partidárias ou não, a serviço do negativismo e do derrotismo nessa luta insana para se eleger.

 

O Patriota

 

Mas de uma coisa, tenho certeza, e como tenho. O mais ingênuo dos doadores na campanha “Ouro para o bem do Brasil”, e aí incluo meu velho, que já partiu, jamais beberia detergente para contestar e dar asas aos mais que oportunistas, aqueles que alardeiam que o único adversário de todos é o PT ou seu maior líder, o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. A campanha “Ouro para o bem do Brasil”, em 1964, trazia, além do pagamento da dívida, o mote mais importante aos anseios dos idealizadores: o fim do comunismo. Mas, que comunismo era esse, que se eliminava a custas de muito ouro, muito dinheiro. Se meu pai, estivesse aí, ele estaria esbravejando contra o que chamaria de idiotice, cantar o Hino Nacional para um monte de pneus. Ou, então, tentar contato com extraterrestres via aparelho celular, implorando para que venham ao Brasil “nos salvar do comunismo”. Meu pai não era idiota, mas cedeu ao convencimento de um influencer da época na capital paulista. Mas, se aí estivesse hoje, não beberia nem chope de graça para contribuir com a ascensão da mediocridade reinante. E muito menos para golpes de Estado. Tenho certeza, assim como tenho da minha sanidade nesse momento.