

Os números relacionados à violência sexual contra crianças e adolescentes em Uberaba continuam preocupando autoridades, profissionais da rede de proteção e entidades ligadas à defesa dos direitos da infância. Mais do que os registros oficiais, o que chama atenção é a possibilidade de que a realidade seja ainda mais grave.
Durante o encerramento da programação do Maio Laranja, realizado na Câmara Municipal de Uberaba, a agente de proteção dos direitos da criança e do adolescente da Vara da Infância e Adolescência, Mara Denise Soares, alertou para a existência de uma significativa subnotificação dos casos de abuso sexual no município.
Segundo ela, muitos episódios nunca chegam ao conhecimento do Poder Judiciário, do Ministério Público ou dos órgãos de proteção. Em algumas situações, os casos só são descobertos quando a violência já produziu consequências graves, como uma gravidez decorrente do abuso.
De acordo com os dados apresentados durante o evento, Uberaba registrou 302 denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes ao longo de 2025. Em 2026, a média permanece em aproximadamente 25 notificações por mês.
O dado se torna ainda mais alarmante quando analisado o perfil das vítimas. Segundo a representante da Vara da Infância, cerca de 80% dos registros envolvem estupro de vulnerável, crime que atinge crianças e adolescentes de até 14 anos de idade.
A maior parte das vítimas é composta por meninas com idades entre 3 e 13 anos, faixa etária considerada extremamente vulnerável e que exige atenção especial das famílias, escolas e órgãos de proteção.
O alerta foi feito durante o 2º Plenarinho, iniciativa que integra a programação do Maio Laranja e tem como objetivo promover conscientização sobre a violência contra crianças e adolescentes. O evento reuniu representantes do Legislativo, da Fundação de Ensino Técnico Intensivo (FETI), do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), da Fundação Cultural de Uberaba e integrantes da rede de proteção.
Segundo a coordenadora da Comissão Proteja, Michelle Carvalho, a proposta do Plenarinho é incentivar o protagonismo juvenil e ampliar o debate sobre o enfrentamento da violência sexual, envolvendo estudantes das redes municipal e estadual, além de organizações do terceiro setor.
Michelle destacou que o tema foi trabalhado durante todo o mês de maio por meio de atividades educativas, exposições, palestras e ações desenvolvidas em escolas e instituições parceiras. Apesar disso, ela ressaltou que o combate à violência sexual não deve ficar restrito a uma campanha específica.
Especialistas defendem que a conscientização precisa ocorrer durante todo o ano para ampliar a capacidade de identificação dos sinais de abuso e incentivar a denúncia.
Durante sua participação, Mara Denise Soares reforçou que a denúncia é a principal ferramenta para interromper ciclos de violência. Segundo ela, juízes, promotores e órgãos de proteção só podem atuar quando os casos chegam oficialmente ao conhecimento das autoridades.
A agente destacou ainda que muitas revelações acontecem dentro das escolas. Professores e profissionais da educação frequentemente se tornam pessoas de confiança para que crianças e adolescentes relatem situações de violência vividas dentro ou fora do ambiente familiar.
As denúncias podem ser realizadas por meio do Conselho Tutelar, da Polícia Militar ou pelo Disque 100, canal nacional que funciona 24 horas por dia, inclusive aos finais de semana e feriados, recebendo ligações anônimas de telefones fixos e celulares.
O Maio Laranja é uma campanha nacional de conscientização criada para marcar o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio. A data foi instituída pela Lei Federal nº 9.970/2000.
A flor laranja, símbolo da campanha, representa a fragilidade da infância e a necessidade de proteção integral das crianças e adolescentes. O objetivo da mobilização é ampliar a conscientização da sociedade sobre um problema que, muitas vezes, permanece escondido dentro dos próprios lares e círculos familiares.
Embora os números oficiais já sejam considerados elevados, o principal alerta feito pelas autoridades durante o evento foi justamente sobre aquilo que ainda não aparece nas estatísticas: os casos que permanecem em silêncio e longe das denúncias.
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