Falar de rock em Uberaba é, de certa forma, falar de resistência. E quando o assunto é manter essa chama acesa, não tem como não mencionar a Projeto Delta — uma banda formada por amigos que encontraram no som pesado e nas guitarras distorcidas a melhor forma de expressar o que sentem.
A Delta nasceu da paixão de quem não apenas ouve rock, mas vive isso como parte do DNA. O vocalista Dorian conta que tudo começou lá atrás, aos oito anos, quando um primo apresentou Engenheiros do Hawaii. Daí em diante, foi um caminho sem volta: Legião Urbana, Titãs, Black Sabbath, Iron Maiden… e o garoto virou roqueiro de alma.
O som da banda é uma mistura deliciosa de influências: o metal clássico dos anos 80, o rock nacional de garagem, e aquele peso bem dos anos 90 que só quem viveu entende. O baixista Diego Lira define o grupo de forma genial — “um canivete suíço do rock”. E é isso mesmo: eles transitam entre estilos, sem perder a essência e sem se vender à mesmice.
Mas o cenário atual não facilita. Uberaba, que já teve mais espaços abertos ao som pesado, hoje concentra quase tudo na Opera House, antiga Cuba Jazz. A prefeitura restringiu o uso da concha acústica para bandas de rock, e isso acabou empurrando a cena para o subterrâneo. E é lá, nesse underground resistente, que a Projeto Delta reina.
O último show, na Opera, foi uma explosão de energia. Gente boa, público quente e a banda entregando tudo no palco. Dorian até brinca que cantou doente — “tava mal da barriga, mas subi assim mesmo” — e ri lembrando das zoeiras entre os músicos. É esse espírito que define a banda: amizade, entrega e uma boa dose de humor pra enfrentar qualquer contratempo.
As músicas autorais, todas compostas por Dorian, trazem letras que misturam o peso do hard rock com o coração aberto do AOR oitentista. Ele fala de relações, de superação e de força — especialmente da masculina, num país onde muitos homens ainda se calam diante da dor. “O rock é minha terapia e minha forma de lutar”, ele diz.
E como bons roqueiros, eles mantêm uma posição clara: música é música, política é política. A banda não se encaixa em lados, não levanta bandeiras — prefere seguir o caminho da arte, da liberdade e do som verdadeiro. “Enquanto houver alguém com uma guitarra na mão, haverá rock”, diz Dorian. E não há frase que defina melhor o espírito da coisa.
Agora, a Projeto Delta está em estúdio, produzindo o primeiro álbum e planejando o lançamento de um videoclipe. Eles tocaram recentemente no aniversário do motoclube Insanos, mas vão dar uma pausa nos palcos pra focar na criação.
E que bom que ainda existem caras assim — que não tocam por fama, mas por amor. O som da Projeto Delta é puro rock feito no Triângulo: intenso, autêntico e com pegada. Enquanto houver gente disposta a suar por um riff e uma ideia, o rock não vai morrer.
Aqui, ele continua vivo — e ecoa em cada acorde dessa banda que carrega no peito o orgulho de ser de Uberaba.