Mundo SAÚDE
PRECONCEITO CONTRA IDOSOS AVANÇA E ESPECIALISTAS ALERTAM PARA IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL E NA QUALIDADE DE VIDA
Etarismo pode favorecer o isolamento social, atrasar diagnósticos e comprometer a autonomia da população idosa; no Triângulo Mineiro, crescimento da população acima de 60 anos reforça a importância do debate.
29/07/2026 17h19
Por: Redação

O preconceito contra pessoas idosas, conhecido como etarismo ou idadismo, continua sendo um desafio silencioso que afeta milhões de brasileiros. Presente em ambientes de trabalho, serviços de saúde, relações familiares e situações do cotidiano, esse tipo de discriminação vai além de comentários considerados "inofensivos" e pode provocar consequências significativas para a saúde física e mental.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 6,3 milhões de casos de depressão em todo o mundo podem estar relacionados ao preconceito baseado na idade. A entidade também aponta que o etarismo está associado ao aumento da ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, declínio cognitivo, piora da saúde mental e redução da qualidade de vida.

A realidade também chama atenção no Triângulo Mineiro, onde municípios como Uberlândia, Uberaba, Araxá, Patos de Minas e Araguari registram crescimento constante da população idosa, acompanhando a tendência nacional identificada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o aumento da expectativa de vida, especialistas defendem que o envelhecimento da população exige políticas públicas voltadas não apenas para a saúde, mas também para a inclusão social e o combate ao preconceito.

De acordo com a psicóloga Mariana Ramos, professora da Afya Centro Universitário Itaperuna, o preconceito relacionado à idade interfere diretamente na forma como a pessoa idosa enxerga a si mesma.

"Quando alguém escuta repetidamente que está 'velho demais', que não consegue mais aprender ou que já não é útil, essas ideias podem ser incorporadas como verdades. Esse processo reduz a autoestima, enfraquece a confiança nas próprias capacidades e favorece sentimentos de tristeza, solidão e desesperança", explica.

A especialista ressalta que o problema nem sempre aparece de forma explícita. Atitudes como interromper a fala de um idoso, decidir por ele sem consultá-lo, infantilizar seu comportamento ou presumir que ele não é capaz de aprender novas tecnologias também configuram manifestações de etarismo.

Impactos vão além da saúde emocional

Segundo a geriatra Karoline Fiorotti, professora de pós-graduação em Geriatria da Afya Vitória, os efeitos da discriminação podem atingir também a saúde física.

"O preconceito relacionado à idade restringe a participação da pessoa idosa na sociedade e pode fazer com que muitas dificuldades sejam atribuídas apenas ao envelhecimento. Isso favorece sintomas de ansiedade e depressão, reduz a motivação para manter hábitos saudáveis e aumenta o risco de dependência, piora das doenças crônicas e até demência."

A médica destaca ainda que muitos idosos deixam de procurar atendimento médico por acreditarem que alterações de memória, tristeza constante ou indisposição fazem parte do envelhecimento natural. Segundo ela, esse comportamento pode atrasar diagnósticos importantes e comprometer o tratamento precoce de diversas doenças.

Cenário exige atenção também no Triângulo Mineiro

O envelhecimento da população é uma realidade cada vez mais presente nas cidades do Triângulo Mineiro. Dados do IBGE mostram que a participação da população com 60 anos ou mais vem crescendo de forma contínua, reflexo da redução da taxa de natalidade e do aumento da expectativa de vida.

Esse cenário amplia a necessidade de fortalecer serviços de saúde, ampliar políticas de inclusão, incentivar atividades de convivência e promover ambientes acessíveis para garantir qualidade de vida à população idosa.

Nos municípios da região, iniciativas como centros de convivência, universidades abertas para a terceira idade, programas municipais de atividade física e ações de saúde preventiva têm buscado estimular o envelhecimento ativo, mas especialistas afirmam que o combate ao preconceito depende também da participação da sociedade.

Como combater o etarismo

Para as especialistas, enfrentar o preconceito contra a idade exige mudanças culturais e coletivas. Valorizar a experiência acumulada pelos idosos, respeitar sua autonomia, incentivar a participação nas decisões familiares e promover ambientes mais inclusivos são medidas fundamentais para reduzir o isolamento social.

Outro desafio apontado é a inclusão digital. Ensinar pessoas idosas a utilizar aplicativos bancários, serviços públicos digitais, plataformas de telemedicina e redes sociais pode ampliar sua independência e facilitar o acesso a serviços essenciais.

As especialistas reforçam que envelhecer é uma etapa natural da vida e que reconhecer a capacidade, a experiência e a individualidade das pessoas idosas contribui para uma sociedade mais inclusiva, saudável e preparada para o envelhecimento da população.