A dor durante a relação sexual ainda é enfrentada em silêncio por muitas mulheres. Vergonha, medo de prejudicar o relacionamento ou a ideia equivocada de que o desconforto faz parte da vida feminina podem retardar a busca por atendimento. Quando recorrente, entretanto, a dor precisa ser investigada.
Conhecida na medicina como dispareunia, ela pode surgir antes, durante ou depois da relação. Algumas mulheres sentem ardência ou queimação na entrada da vagina, enquanto outras relatam uma dor profunda na região pélvica, especialmente durante a penetração.
O problema pode atingir mulheres de diferentes idades e ter causas físicas, hormonais, musculares ou emocionais. Em alguns casos, mais de um fator está envolvido. A dor não deve ser ignorada nem interpretada automaticamente como falta de desejo ou dificuldade no relacionamento.
ONDE A DOR APARECE PODE DAR PISTAS
A localização e o momento em que o desconforto surge ajudam o profissional de saúde a investigar a causa. A dor na entrada da vagina pode estar relacionada à falta de lubrificação, irritações, infecções, alterações na pele da vulva, vulvodínia ou contrações involuntárias da musculatura vaginal.
Quando a dor é sentida mais profundamente, as possíveis causas incluem endometriose, inflamação pélvica, miomas, adenomiose, cistos ovarianos, alterações na bexiga, cicatrizes de cirurgias e problemas na musculatura do assoalho pélvico.
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose, do Ministério da Saúde, inclui a dor durante a relação entre as manifestações que devem ser consideradas na avaliação da doença.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a endometriose afeta aproximadamente 10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo. Além da dor nas relações, a condição pode provocar cólicas menstruais intensas, dor para evacuar ou urinar, sangramento menstrual volumoso, cansaço e dificuldade para engravidar.
DOR TAMBÉM PODE SER SINAL DE INFECÇÃO
Corrimento com alteração de cor ou odor, coceira, feridas, ardência ao urinar e sangramento fora do período menstrual podem indicar infecções vaginais, urinárias ou sexualmente transmissíveis.
Candidíase, tricomoníase, clamídia, gonorreia, herpes genital e doença inflamatória pélvica estão entre as condições que podem causar desconforto. Algumas infecções, porém, podem não apresentar sintomas evidentes, reforçando a importância da avaliação e dos exames quando indicados.
O uso de medicamentos por conta própria não é recomendado. Corrimento, coceira e ardência podem ter diferentes origens, e um tratamento inadequado pode mascarar o quadro, atrasar o diagnóstico ou favorecer a repetição dos sintomas.
MENOPAUSA, PÓS-PARTO E AMAMENTAÇÃO
A redução dos níveis de estrogênio durante a transição para a menopausa pode deixar os tecidos vaginais mais finos, menos elásticos e com menor lubrificação. Além da dor, podem surgir secura, ardência, coceira, irritação e sintomas urinários.
O Manual de Atenção às Mulheres na Transição Menopausal e Menopausa, publicado pelo Ministério da Saúde em 2026, destaca a secura vaginal e a dor nas relações entre as principais queixas geniturinárias dessa fase.
Alterações hormonais também podem acontecer depois do parto e durante a amamentação. Cicatrizes de cesárea, episiotomia ou lacerações no parto, além da tensão na musculatura pélvica, podem contribuir para o desconforto.
Lubrificantes à base de água podem ajudar quando existe ressecamento, mas não substituem a avaliação quando a dor é frequente. Tratamentos hormonais e outros medicamentos possuem indicações e contraindicações e devem ser definidos individualmente.
O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO
Os músculos do assoalho pélvico participam da sustentação da bexiga, do útero e do intestino. Quando permanecem excessivamente contraídos, podem dificultar a penetração e provocar dor, queimação ou sensação de bloqueio.
No vaginismo, a musculatura se contrai de forma involuntária diante da tentativa de penetração. A mulher não escolhe essa reação e não consegue simplesmente controlá-la. Insistir na relação apesar da dor pode aumentar o medo e reforçar o ciclo de tensão muscular.
A fisioterapia pélvica pode integrar o tratamento em casos selecionados. O acompanhamento pode envolver técnicas de relaxamento, consciência corporal e reabilitação da musculatura, sempre respeitando os limites da paciente.
FATORES EMOCIONAIS NÃO TORNAM A DOR MENOS REAL
Ansiedade, estresse, depressão, medo da dor, insegurança, conflitos no relacionamento e experiências traumáticas podem afetar a resposta sexual e aumentar a tensão muscular.
Isso não significa que a dor seja imaginária. O desconforto inicial pode gerar medo de uma nova experiência dolorosa. Esse receio dificulta o relaxamento e a excitação, reduz a lubrificação e torna a relação seguinte ainda mais desconfortável.
Dependendo do caso, o tratamento pode incluir acompanhamento psicológico ou terapia sexual, associado à investigação ginecológica. O objetivo não é responsabilizar a mulher, mas compreender todos os fatores envolvidos.
QUANDO PROCURAR ATENDIMENTO
A recomendação é procurar um profissional quando a dor se repete, piora, impede a penetração, provoca medo das relações ou interfere na qualidade de vida. Sangramento após o sexo, corrimento diferente, feridas, coceira persistente, dor ao urinar, alterações menstruais e dor pélvica fora das relações também devem ser relatados.
Dor intensa e repentina, febre, desmaio, sangramento importante ou dor pélvica durante uma possível gravidez exigem atendimento rápido.
A avaliação pode incluir conversa sobre os sintomas, histórico menstrual, medicamentos, cirurgias, partos e exames anteriores. O exame físico deve ser explicado e realizado com consentimento. A paciente pode solicitar a interrupção caso sinta dor ou desconforto.
O tratamento depende da causa e pode envolver medicamentos contra infecções, controle da endometriose, cuidados para alterações da menopausa, fisioterapia pélvica, lubrificantes, acompanhamento psicológico ou procedimentos específicos.
Em Uberaba, Uberlândia e nos demais municípios do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, as Unidades Básicas de Saúde e as equipes de Saúde da Família são a principal porta de entrada do SUS. A rede municipal pode realizar a avaliação inicial e encaminhar a paciente para atendimento especializado quando houver necessidade.
Romper o silêncio é parte do cuidado. A vida sexual não deve ser construída em torno da obrigação de suportar dor. Identificar a causa permite proteger a saúde, recuperar a segurança e melhorar a qualidade de vida.