A tecnologia aplicada à indústria têxtil está mudando a forma como as roupas são desenvolvidas e utilizadas. Além de cor, textura e caimento, características como proteção contra a radiação ultravioleta, secagem rápida, respirabilidade, elasticidade e compressão passaram a influenciar a escolha dos materiais.
Essas funcionalidades são encontradas principalmente em roupas esportivas, moda praia, peças para natação e produtos destinados a atividades ao ar livre. O avanço também começa a aparecer em vestimentas utilizadas no cotidiano, acompanhando a procura por conforto, praticidade e desempenho.
Embora sejam frequentemente chamados de “tecidos inteligentes” pelo mercado, muitos desses materiais são classificados tecnicamente como tecidos funcionais ou de desempenho. O termo “tecido inteligente” também pode ser aplicado a produtos mais complexos, capazes de reagir ao ambiente ou incorporar sensores e componentes eletrônicos.
Para Karine Strapazzon, especialista em modelagem e fundadora da marca Arsie, a escolha do material passou a interferir diretamente na construção das peças.
“Cada material tem um comportamento diferente e influencia diretamente o caimento, a sustentação e o conforto da peça”, afirma. Segundo ela, tecido e modelagem precisam ser planejados em conjunto para que a roupa entregue a funcionalidade esperada.
PROTEÇÃO CONTRA A RADIAÇÃO SOLAR
Entre as tecnologias que ganharam espaço está o Fator de Proteção Ultravioleta, identificado pela sigla UPF. A classificação indica quanto da radiação ultravioleta consegue atravessar o tecido em condições específicas de teste.
Uma roupa classificada como UPF 50 permite a passagem de aproximadamente 1/50 da radiação incidente, o equivalente a cerca de 2%. Dessa forma, o material bloqueia aproximadamente 98% da radiação ultravioleta quando utilizado nas condições avaliadas, segundo o Cancer Council da Austrália.
A proteção, entretanto, pode variar conforme a estrutura do tecido, a cor, o nível de estiramento, a umidade, o desgaste e a forma como a peça cobre o corpo. Por isso, a presença da expressão “proteção UV” na etiqueta não deve ser confundida automaticamente com uma certificação laboratorial.
As roupas com proteção ultravioleta também não substituem completamente outras medidas, como protetor solar, uso de chapéu, óculos e permanência em locais com sombra.
SECAGEM RÁPIDA DEPENDE DA CONSTRUÇÃO
Os tecidos conhecidos comercialmente como Dry ou de secagem rápida são desenvolvidos para transportar a umidade da pele para uma área maior da superfície da roupa. Esse processo facilita a evaporação e reduz a sensação de tecido encharcado.
A capacidade de controlar a umidade depende da composição das fibras, do formato dos fios, da espessura, da trama e dos tratamentos aplicados ao material. Pesquisas sobre vestuário esportivo indicam que a capacidade de espalhar a umidade exerce influência direta no tempo de secagem.
O desempenho também pode mudar de acordo com fatores externos. Temperatura, umidade do ar, intensidade da atividade física e quantidade de água absorvida interferem na velocidade de secagem. Portanto, a expressão “Dry” não representa o mesmo resultado em todos os produtos.
COMPRESSÃO EXIGE EQUILÍBRIO
Tecidos elásticos também passaram a ser utilizados para oferecer diferentes níveis de compressão. Em roupas de praia, natação e atividades físicas, a compressão leve pode ajudar a manter a peça estável no corpo e proporcionar sensação de sustentação.
De acordo com Karine Strapazzon, o objetivo desse tipo de construção não deve ser apenas apertar ou produzir efeito estético, mas acompanhar os movimentos sem comprometer o conforto.
Apesar da popularidade das roupas de compressão no esporte, revisões científicas apontam que os efeitos sobre desempenho, recuperação e prevenção de lesões ainda variam conforme o tipo de peça, o nível de pressão e o perfil de quem utiliza. Por isso, roupas de compressão voltadas à moda e ao lazer não devem ser tratadas como produtos terapêuticos.
IMPACTO AMBIENTAL DEPENDE DO PROCESSO
A inovação também alcançou as formas de aplicar cores e estampas. A impressão digital pode reduzir etapas, telas, testes, desperdícios de tinta e parte do consumo de água quando comparada a determinados processos tradicionais.
No entanto, não é possível afirmar que toda impressão digital seja automaticamente sustentável. O resultado ambiental depende do tipo de tinta, do tratamento anterior do tecido, das lavagens posteriores, da fonte de energia e da quantidade produzida.
Estudos comparativos apontam potencial de redução no consumo de recursos, mas ressaltam que cada processo deve ser avaliado ao longo de todo o ciclo de produção.
A mesma cautela vale para os tecidos reciclados. Eles podem diminuir a dependência de matérias-primas fósseis virgens, mas fatores como coleta, separação, transporte, energia e transformação dos resíduos também precisam ser considerados.
A Textile Exchange destaca que a forma de produção influencia diretamente o impacto ambiental do poliéster, inclusive nas versões recicladas. Certificações independentes e informações sobre a origem das fibras ajudam a dar credibilidade às alegações apresentadas pelas marcas.
ATENÇÃO ÀS ETIQUETAS
Antes da compra, o consumidor pode verificar a composição do tecido, a existência de certificações, o fator de proteção ultravioleta, as instruções de lavagem e a finalidade indicada para a peça.
No caso de produtos com material reciclado, padrões como o Recycled Claim Standard e o Global Recycled Standard utilizam auditorias de terceiros para verificar o conteúdo reciclado e a cadeia de fornecimento.
Também é importante seguir as orientações de conservação. Lavagens inadequadas, desgaste, produtos químicos e exposição prolongada podem alterar a elasticidade, o acabamento e algumas propriedades funcionais.
A evolução da indústria mostra que o tecido deixou de ser apenas a base visual de uma roupa. Atualmente, ele influencia proteção, conforto, mobilidade, durabilidade e impacto ambiental, tornando-se parte central do desenvolvimento de novos produtos.