Uma história que começou no fim da década de 1960, dentro de uma cozinha familiar, atravessou gerações, enfrentou crises e recomeços e chegou a diferentes regiões do Brasil. Os Doces Dona Lázara, de Uberlândia, carregam no nome a trajetória de Lázara Terezinha, que encontrou na produção de doces uma maneira de complementar a renda e ajudar no sustento da família.
Mais de cinco décadas depois, o neto Marlon de Oliveira participa da continuidade de um legado que já alcança a quarta geração.
Ainda menino, Marlon acompanhava a avó em uma Variant azul pelas estradas do Triângulo Mineiro. Dona Lázara fazia entregas em armazéns, mercados e barracas às margens das rodovias. Enquanto ela negociava os produtos, o neto acompanhava uma rotina que, anos depois, se tornaria parte importante da história da marca.
No fim da década de 1960, Dona Lázara começou a produzir goiabada cascão para complementar a renda familiar. Com o crescimento da procura, a cozinha foi, aos poucos, transformada também em espaço de trabalho.
Novos produtos passaram a integrar a produção, entre eles a geleia de mocotó, bastante consumida naquele período.
Em busca de novas oportunidades, Dona Lázara mudou-se para Uberlândia e montou uma pequena fábrica. Além da produção, ela acompanhava pessoalmente as vendas e mantinha contato próximo com os clientes.
Segundo Marlon, outra característica da avó era o cuidado na escolha da matéria-prima, princípio que continua sendo uma referência para a família.
Na década de 1980, Valdete, filha de Dona Lázara, passou a dividir o trabalho com a mãe e iniciou a fabricação de geleias para atender à demanda dos clientes.
Foi também nesse período que surgiu aquele que se tornaria o principal produto do negócio. Valdete adquiriu de uma conhecida da família, em Ituiutaba, uma receita de doce de leite e passou meses fazendo testes e adaptações até chegar ao resultado desejado.
Após a morte de Dona Lázara, Valdete assumiu o empreendimento, comprou a fábrica e deu continuidade ao trabalho iniciado pela mãe. O negócio passou a atuar com o nome UDI Doces e ampliou sua presença durante os anos 1990.
Marlon cresceu acompanhando essa transformação e, ainda adolescente, passou a trabalhar na fábrica ao lado da mãe.
Depois de um período de expansão, a empresa enfrentou dificuldades no fim dos anos 1990. Segundo o relato da família, a crise econômica daquele período, somada à inadimplência de clientes, afetou diretamente o negócio.
Sem conseguir manter a estrutura construída nos anos anteriores, Valdete reduziu a produção e concentrou os esforços em um número menor de produtos para manter a atividade.
Marlon seguiu outro caminho profissional. Retomou os estudos, formou-se em História, concluiu mestrado e construiu carreira na área da educação, embora permanecesse ligado à história da empresa.
Décadas depois, ao perceber que a mãe começava a diminuir o ritmo de trabalho, decidiu retornar ao negócio familiar.
O retorno também coincidiu com uma reflexão sobre o posicionamento da empresa. Durante um trabalho de construção de marca, surgiu a sugestão de utilizar o nome de Dona Lázara nos produtos.
A mudança fez com que a trajetória da fundadora passasse a ocupar o centro da identidade da empresa, dando origem à marca Doces Dona Lázara.
O processo de reposicionamento ganhou novo impulso com a participação no Origem Minas, programa do Sebrae Minas voltado à valorização de pequenos produtores. Segundo Marlon, a presença em feiras e outras iniciativas ajudou a apresentar os produtos a novos compradores e ampliar a presença da marca.
Atualmente, segundo dados divulgados pela empresa, os Doces Dona Lázara comercializam cerca de 30 mil doces por mês, com faturamento mensal de aproximadamente R$ 700 mil.
Os produtos são comercializados em empórios e estabelecimentos especializados em produtos artesanais de quase todos os estados brasileiros, além das vendas realizadas pelas redes sociais.
A história familiar também chegou à quarta geração. Samuel e Gabriel Oliveira, sobrinhos criados por Marlon após a morte do irmão, trabalham atualmente no negócio.
Mais de cinco décadas depois das primeiras goiabadas produzidas por Dona Lázara, a trajetória que começou com uma mulher vendendo doces pelas estradas do Triângulo Mineiro permanece como parte central da identidade da empresa, agora conduzida por novas gerações da família.