As compras internacionais de pequeno valor voltaram a ganhar força em 2026, enquanto o varejo de moda enfrenta perda de ritmo em Minas Gerais. Levantamento da Fecomércio MG aponta que as remessas realizadas por meio do Programa Remessa Conforme movimentaram R$ 12,16 bilhões entre janeiro e julho deste ano, contra R$ 8,25 bilhões no mesmo período de 2025.
O crescimento foi de aproximadamente 47,4% em um ano. A média mensal das remessas passou de R$ 1,18 bilhão nos sete primeiros meses de 2025 para R$ 1,74 bilhão em igual período de 2026.
Em alguns meses, o avanço na comparação com o ano anterior foi ainda maior: 42,9% em maio, 100% em junho e 71,3% em julho.
O movimento ocorre enquanto o segmento de tecidos, vestuário e calçados apresenta retração. Em Minas Gerais, depois de iniciar 2026 praticamente estável, com crescimento de 0,1% em janeiro, o setor passou a registrar quedas. Em junho, a retração acumulada em 12 meses chegou a 4,4% no estado, enquanto no Brasil o recuo foi de 1,2%.
O estudo, intitulado “O impacto da taxação de pequenos valores no varejo de moda”, analisou dados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, do Programa Remessa Conforme, da Receita Federal, além de informações relacionadas ao comércio exterior e à cadeia da moda.
Um dos períodos analisados foi o início da cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, em agosto de 2024.
Antes da mudança, as remessas apresentavam trajetória de crescimento. Entre junho e julho de 2024, último bimestre anterior à cobrança, foram movimentados R$ 3,13 bilhões pelo Remessa Conforme.
Nos dois meses seguintes, agosto e setembro, o montante caiu para R$ 1,85 bilhão, redução de 40,9% em relação ao bimestre anterior.
Ao longo de 2025, segundo o levantamento, as remessas permaneceram em patamar relativamente mais estável e abaixo dos níveis registrados antes da mudança de agosto de 2024. No mesmo período, o segmento de tecidos, vestuário e calçados apresentou recuperação.
Em Minas Gerais, o segmento de moda começou 2024 com retração de 12,7% no volume de vendas acumulado em 12 meses. A recuperação ocorreu ao longo daquele ano e o indicador encerrou dezembro com crescimento de 4,2%, enquanto o varejo mineiro como um todo avançou 3,3%.
O desempenho positivo continuou em parte de 2025. Em maio e junho daquele ano, tecidos, vestuário e calçados registraram crescimento de 6,6% em Minas Gerais.
O cenário voltou a se deteriorar em 2026. Em junho, a retração acumulada em 12 meses alcançou 4,4%.
Para a economista da Fecomércio MG Fernanda Gonçalves, os movimentos precisam ser observados em conjunto.
“Os números mostram dois movimentos que merecem ser analisados em conjunto: de um lado, a forte retomada das remessas internacionais; de outro, a perda de força de um segmento altamente exposto à concorrência por preço”, avalia.
O impacto do desempenho do setor ganha dimensão pela participação da cadeia da moda na economia mineira.
Segundo o levantamento, a moda representa aproximadamente 5,2% dos estabelecimentos de Minas Gerais, acima dos 4,4% registrados nacionalmente. Considerando apenas o comércio, o segmento corresponde a cerca de 15% dos estabelecimentos comerciais mineiros, contra aproximadamente 13,6% no país.
Minas também possui 18 Arranjos Produtivos Locais (APLs) ligados à moda, distribuídos por 87 municípios. Juntos, eles concentram aproximadamente 67 mil empresas formais e 80 mil empregos diretos.
Entre os principais polos estão a Região Metropolitana de Belo Horizonte, Nova Serrana, Divinópolis, São João Nepomuceno, Jacutinga, Muriaé e Juiz de Fora.
O estudo também analisou a origem dos produtos importados relacionados à cadeia da moda.
Em julho de 2026, a China respondeu por 51,2% do valor total importado nos grupos analisados e por 57,8% das quantidades.
No segmento de tecidos, a participação chinesa chegou a 70,3% do valor e 79,7% da quantidade importada. Em vestuário, o país representou 43,9% do valor e 98,4% da quantidade. Nos calçados, Vietnã e Indonésia aparecem nas primeiras posições.
Apesar da coincidência entre o avanço das remessas internacionais e a retração do varejo de moda em 2026, a própria Fecomércio MG ressalta que os números não permitem atribuir exclusivamente às mudanças tributárias o comportamento do setor.
Fatores como renda das famílias, endividamento, condições de crédito, sazonalidade, câmbio e estratégias comerciais também podem influenciar as vendas.
A conclusão do levantamento é que os indicadores são compatíveis com a hipótese de que mudanças na tributação alteram a atratividade dos produtos estrangeiros e, consequentemente, as condições de concorrência enfrentadas pelo comércio brasileiro.
“Não estamos atribuindo todo o comportamento do setor a uma única variável. O que mostramos é que existe uma convergência de indicadores que merece atenção quando analisamos a competitividade do comércio brasileiro e a capacidade de geração de atividade econômica e empregos no país”, afirma Fernanda Gonçalves.