Uberaba POR WALTER FARNEZI
UBERABA ENTRE O FERTILIZANTE, A CRISE E O GÁS QUE PODE MUDAR O FUTURO
Depois de décadas marcadas pela indústria de fertilizantes, cidade volta ao centro das discussões sobre energia, produção e novos investimentos
07/09/2026 16h28 Atualizada há 2 semanas
Por: Redação

Chegou o Desenvolvimento

Meados da década de 1970, o prefeito de Uberaba fez festa e soltou foguete em seu gabinete quando um grupo de engenheiros da Petrobrás, vindos do Rio de Janeiro, anunciaram a decisão do Governo Federal em instalar à margem do rio Grande o que seria a maior planta de fertilizantes fosfatados da América Latina. Escolhida pela sua posição geográfica, ligação por ferrovia e rodovia aos portos marítimos e, pasmem, um aeroporto que recebia aeronaves de grande porte diariamente, em diferentes horários, facilitando ainda mais a ligação com as principais capitais do país e o mundo. A então Valefértil(depois Fosfértil) chegou para enriquecer e fomentar nova linha de desenvolvimento para Uberaba, Minas Gerais e o país.

O sonho

A Fosfértil Fertilizantes Fosfatados passou a ser o marco para uma Uberaba diferente a que viveu até então sob os movimentos da economia soberana do gado Zebu com suas feiras agropecuárias, em maio. A partir de obras da implantação da fábrica até as suas atividades em pleno vapor, o sonho dos uberabenses passou a ser a conquista de uma vaga de emprego no Distrito Industrial à margem do rio Grande ao menos por um dos membros da família. Foram décadas de bons ventos e muitos frutos. Emprego, movimento de giro econômico nos setores imobiliário, alimentação, educacional, saúde, e até mesmo de bares e clubes de lazer.

Lavoura & Comércio

A partir daí, Uberaba caminhou para o crescimento até do inesperado. Estudos da Embrapa(Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) subsidiaram o uso do antes quase inservível solo de cerrado para o plantio de certas culturas com uso de fertilizantes, previamente decididos nas suas formas e composições em análises e estudos para cada variável de solo. Veio uma ampla iniciativa, envolvendo município, estado e federação com suportes tecnológicos e humanos e Uberaba passou a liderar em Minas Gerais a produção agrícola e ocupar destaque nas primeiras linhas da formação do PIB nacional do agronegócio. Uberaba deixou de ser conhecida apenas pela qualidade em seleção pecuária, fazendo uma verdadeira travessia para o mundo agrícola do país. Talvez fosse esse seu ideal original desde o início do século vinte quando Quintiliano Jardim deu o titulo de Lavoura & Comércio a um dos cinco primeiros jornais diários do país.

Nada é para sempre

Tudo muda. O mundo não é mais o mesmo de 50 anos atrás e até barragens de rejeito, erguidas quando ninguém pensou em até que ponto e até quando a natureza suportaria, e o que veio em seguida (Mariana e Brumadinho) todo mundo sabe, viu e acompanhou. E ainda temos muitas dessas para romper. Mudou tanto que até jornal impresso em papel ficou parado no tempo da fotografia em câmera escura, o mundo é digital. E assim e por aí caminhamos na medicina, com seus exames e cirurgias por vídeos. Nada é para sempre, nem nós. Pois bem, sol com a peneira sempre foi difícil e impossível de tapar na totalidade. Assim e mais ou menos por aí é o que vivemos agora com o que chamam de “crise do enxofre”, matéria prima essencial para a produção do fertilizante fosfatado, o qual, diga-se, importamos entre 75% a 80% do que consumimos em nossas lavouras. Não produzindo em casa, pior ainda.

Escuro túnel, fundo invisível

O mundo mudou e a forma de se administrar politicamente também, e muito. Não tomamos mais conhecimento a fundo de questões que envolvem problemas como a falta de fertilizante fosfatado que já bateu à porta e entrou. As grandes representantes da nossa produção de fertilizante como a Mosaic, misturadoras e outros serviços ao entorno dos parques industriais já passaram dos sinais e anunciaram fechamentos de unidades, interrupções de negócios, demissões, entre outras medidas paliativas. Sim, paliativas, porque embora anunciem paradas temporárias “até passar a crise”, sabem bem que na verdade o túnel está escuro e sem fundo. Ninguém arrisca um palpite sobre como será o próximo ano. Se teremos de imediato uma quebra em produtividade. Devido à redução no volume de fertilizante aplicado ao solo já a partir desse mês, se teremos fertilizante para o uso no plantio do ano que vem, se teremos em que quantidade e qual o fertilizante disponível à correção do solo. A Mosaic, por exemplo, revelou em julho que os estoques de fosfatado no Brasil acabaram, com os últimos vindo do raspa na baia chegando ao produtor rural nesse setembro.

Chegada da luz

Mas, nem tudo está perdido e a felicidade até existe. Poderemos ter até o gás para produzir fertilizante nitrogenado em 2030. A data estimada pelo colunista, veio em otimista avaliação da conjectura atual ao acompanhar revelações de quem está por trás de toda movimentação Nacional para tornar o gás a preços compatíveis a construção de dutos para transporte e evidente condução do precioso insumo ao interior do país. E para comemorar: Uberaba mais uma vez está na roda das decisões do empreendimento que nos trará a escada com a qual alcançaremos boia e farol para iluminar o fim do túnel. Em palestras e apresentações na Associação Comercial e Industrial de Uberaba(ACIU), em agosto, engenheiros, técnicos, representantes da Petrobrás, Ministério de Minas e Energia e Agencia Nacional do Petróleo e Gás(ANP), anunciaram a abertura em edital em 2027 para os leilões a interessados em comprar o gás para uso nas indústrias que se instalarão no Triângulo Mineiro, precisamente no Distrito Industrial III de Uberaba, lá mesmo onde está, desde a década de 1970, o maior complexo de fertilizante fosfatado da América Latina.

O gás que faltava

O “Programa Gás para Empregar”, uma iniciativa do Governo Federal vai disponibilizar o gás com foco na reindustrialização do país. Um de seus cinco objetivos principais é direcionar o gás natural como matéria-prima barata( como foi um dia o enxofre) para setores estratégicos , como a produção de fertilizantes nitrogenados e produtos petroquímicos. Na área de infraestrutura e investimentos tem por objetivo estimular redes de escoamento, processamento e transporte de gás. O programa foi criado por diretrizes do Conselho Nacional de Política Energética(CNPE) e regulamentado por decreto presidencial, em 2021.

Walter Farnezi | Coluna Outras Palavras