Uberaba INOVAÇÃO
IFACE PROTOCOL: TECNOLOGIA CRIADA EM UBERABA PROPÕE NOVA CAMADA DE SEGURANÇA PARA PAGAMENTOS
Projeto desenvolvido pelo professor e pesquisador Fernando Carlos Hueb de Menezes utiliza biometria para identificar e validar quem recebe o dinheiro
19/09/2026 13h45
Por: Redação

Fazer um Pix tornou-se parte da rotina dos brasileiros. Em poucos segundos, é possível transferir dinheiro para qualquer lugar do país. Apesar dessa evolução, o processo ainda depende de chaves, QR Codes e dados bancários, além de conviver com uma preocupação crescente nos pagamentos digitais: as fraudes.

Foi a partir desse cenário que nasceu o iFace Protocol, tecnologia desenvolvida pelo professor e pesquisador Fernando Carlos Hueb de Menezes, da Universidade de Uberaba (Uniube). Ele atua há mais de 30 anos com pesquisa, inovação e desenvolvimento de novos projetos.

A ideia central é utilizar a biometria não apenas para confirmar quem está pagando, mas também para identificar e validar quem está recebendo.

“Hoje os sistemas financeiros são muito eficientes em confirmar a identidade de quem inicia uma operação. O iFace parte de uma pergunta diferente: e quem está do outro lado da transação?”, explica o pesquisador.

O projeto foi estruturado em três módulos complementares.

PAGAR UMA PESSOA SEM PRECISAR PERGUNTAR A CHAVE PIX

O primeiro módulo talvez seja o mais fácil de imaginar.

Em vez de perguntar a chave Pix, digitar um CPF ou procurar um contato, o pagador poderia utilizar a biometria do próprio recebedor para determinar para quem o pagamento deve ser enviado.

Em uma possível aplicação com reconhecimento facial, por exemplo, a câmera identificaria biometricamente o recebedor, e o sistema encontraria, de forma segura, o destino financeiro previamente associado àquela pessoa.

Na prática, a experiência poderia ser tão natural quanto olhar, identificar e pagar.

A tecnologia não pretende transformar uma fotografia em uma “chave Pix”. Por trás da experiência simples, existe uma arquitetura de segurança que relaciona a representação biométrica da pessoa a um destino de pagamento previamente cadastrado.

ANTES DE LIBERAR O DINHEIRO, CONFIRMAR QUEM ESTÁ RECEBENDO

O segundo módulo nasceu principalmente da preocupação com fraudes.

Atualmente, sistemas antifraude, inteligência artificial e análises comportamentais conseguem identificar muitas operações suspeitas. No entanto, existem situações em que uma conta pode parecer perfeitamente regular, inclusive quando foi aberta pelo próprio titular, e posteriormente ser utilizada por terceiros ou como parte de esquemas de fraude.

A proposta do iFace Protocol é criar uma última barreira antes da liberação de determinadas operações.

Em uma transferência considerada de maior risco, o dinheiro não seria disponibilizado imediatamente. O recebedor receberia uma solicitação em seu dispositivo para confirmar biometricamente a própria identidade.

Se a identidade for confirmada, a operação segue. Caso não haja confirmação, o valor pode permanecer suspenso para uma nova verificação.

A lógica é que, em determinados casos, não basta saber para qual conta o dinheiro está sendo enviado. Também seria possível perguntar: “É realmente essa pessoa que está recebendo?”.

Essa mesma arquitetura começa a abrir possibilidades além dos pagamentos entre pessoas, como a validação de beneficiários no recebimento ou na movimentação de recursos públicos.

MENOS BARREIRAS QUANDO JÁ EXISTE CONFIANÇA

O terceiro módulo acrescenta um conceito importante: confiança dinâmica.

Se duas pessoas já realizaram operações legítimas entre si e tiveram suas identidades validadas, não faria sentido criar a mesma barreira em todas as transações futuras.

O sistema pode construir uma relação de confiança entre aquele pagador, aquele recebedor e as instituições envolvidas.

Operações habituais podem acontecer com menos atrito. Já uma mudança significativa de valor, comportamento, dispositivo ou contexto pode levar o sistema a solicitar uma nova confirmação.

Em outras palavras, a proposta é oferecer mais segurança quando o risco aumenta e menos burocracia quando a relação já é conhecida.

BIOMETRIA COMO FERRAMENTA DE CONFIANÇA

O diferencial do iFace Protocol não está simplesmente na utilização de reconhecimento facial.

A proposta é mais ampla e pode empregar diferentes modalidades biométricas, conforme a aplicação e a infraestrutura disponível.

O objetivo é introduzir a identidade de quem recebe como uma nova informação de segurança dentro da transação.

Segundo o projeto, essa arquitetura pode ajudar a enfrentar desafios dos sistemas atuais, como contas utilizadas por terceiros, contas de passagem e estruturas empregadas para receber e pulverizar rapidamente recursos provenientes de golpes.

A tecnologia não é apresentada como uma solução capaz de eliminar todas as fraudes — nenhum sistema isolado conseguiria fazer isso. A proposta é acrescentar uma nova barreira justamente em um ponto ainda pouco explorado: o lado de quem recebe.

TECNOLOGIA NASCIDA DA PESQUISA BRASILEIRA

Desenvolvido em Uberaba, o iFace Protocol tem origem acadêmica. Segundo as informações fornecidas pelo projeto, a tecnologia vem sendo apresentada e discutida com participantes do ecossistema financeiro, incluindo o Banco Central, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e outras instituições e empresas relacionadas ao setor.

O projeto também informa contar com um portfólio de pedidos de patente de invenção depositados no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), destinados à proteção de aspectos técnicos das soluções desenvolvidas.

O depósito de um pedido de patente representa o início do processo de análise pelo INPI e não deve ser confundido com a concessão definitiva da patente.

Agora, o desafio é avançar na aproximação com instituições capazes de transformar a tecnologia em projetos-piloto e aplicações reais.

Para Fernando, a mudança proposta pelo iFace pode ser resumida em uma pergunta:

“Se já usamos tecnologia para ter certeza de quem está pagando, por que não utilizá-la também para saber quem realmente está recebendo?”

A próxima evolução dos pagamentos digitais pode não estar apenas em torná-los mais rápidos, mas também em associar cada transação não somente a contas e números, mas às pessoas que estão dos dois lados.