Patos de Minas De Uberaba ao mundo
Luciano Risso: o mineiro que fez da arte um caminho entre o cerrado, o cinema e o espírito
De Uberaba ao mundo, o ator, diretor e preparador de elenco construiu uma trajetória que une ancestralidade, educação, cinema e espiritualidade, atravessando fronteiras culturais e humanas
04/11/2025 16h11
Por: Redação

Luciano Risso é um desses nomes que parecem conter histórias inteiras dentro de si. Nascido e criado em Uberaba, Minas Gerais, ele carrega o sotaque das veredas, o coração cheio de memórias da infância e o olhar sempre voltado para o horizonte. Filho da dona Helena e do seu Tiãozim, é pai de Maya, Maria e Lila, e avô de Miguel e Theo. Um homem que se define com simplicidade e poesia: “Sou mineiro! Isso já conta muita coisa de mim. Menino sonhador que amava brincar na terra e olhar pro céu do interior de Minas.”

Ainda criança, Luciano passava temporadas nas Perdizes, onde aprendeu com a avó Lia sobre o mato, os bichos e a liberdade. Aquelas experiências moldaram não só seu caráter, mas também sua visão de mundo. “Aprendi ali a observar, a escutar, a respeitar o tempo das coisas”, lembra. Essa conexão com a terra se aprofundou anos depois, quando viveu entre o povo Xavante, no Mato Grosso. Lá, foi iniciado em rituais sagrados, teve as orelhas perfuradas com osso de onça e foi adotado por uma família A’uwe Uptabi. “Aprendi com eles sobre os mundos visíveis e invisíveis — e sobre o poder do sonho”, diz, referindo-se ao ritual do Wai’á, o mais profundo dos Xavante.

Um caminho que nasce do palco

A trajetória profissional de Luciano começou cedo, em 1993, no grupo TEAMAR, do Colégio Marista Diocesano. Em poucos anos, tornou-se arte-educador, diretor teatral e um incansável articulador de projetos culturais e sociais. No final dos anos 1990, já levava teatro e cidadania às escolas públicas de Uberaba, dirigindo grupos como o TREMEU e o Tons in Versus.

Entre 2001 e 2005, sua atuação se expandiu para o campo social: criou grupos de teatro com jovens em medidas socioeducativas, desenvolveu projetos de inclusão e organizou os “Encontros da Paz”, que uniram comunidades indígenas e acadêmicas em um diálogo inédito. Foi também assessor parlamentar e idealizador de políticas públicas de cultura e cidadania.

Em 2006, São Paulo o chamou. Luciano mergulhou de cabeça no cinema e passou quase 13 anos ao lado de Fátima Toledo, uma das maiores preparadoras de elenco da América Latina. Ali, trabalhou com grandes nomes do audiovisual — de Dira Paes e Leandra Leal a Seu Jorge e Bruno Gagliasso — e participou de produções premiadas como Cidade de Deus, Marighella, Pedágio e Divino Amor.

Mas Luciano nunca se limitou a uma função. É ator, diretor, roteirista, professor, pesquisador e reikiano há mais de 20 anos. “Sou um realista que vive a sua luta, mas no fundo continuo sendo aquele menino que nunca deixou de sonhar”, afirma.

Um artista entre mundos

Risso participou de mais de 40 espetáculos teatrais e dezenas de produções audiovisuais. Em 2019, retomou a carreira de ator com participações nas séries Carcereiros e Aruanas, e no longa Assalto na Paulista. Seu curta A Luta, co-dirigido com Fausto Saez, venceu o prêmio de Melhor Filme de Artes Marciais no Cannes World Film Festival de 2023.

Atualmente, Luciano vive em São Paulo, mas mantém viva sua ligação com Minas e com o povo Xavante. Mestrando na USP, pesquisa o Direito Indígena e a descolonização jurídica das identidades autóctones — uma ponte entre arte, ética e ancestralidade. “Foi uma das maiores conquistas da minha vida voltar a estudar depois dos 45 anos. A pesquisa é também uma forma de devolver à vida o que ela me ensinou.”

Sabedoria e afeto como legado

Luciano diz ter herdado da mãe a força e a resiliência, e do pai, a humildade e a ternura. “Eles me ensinaram a honestidade, a gentileza e a consciência de classe. A nunca ser indiferente às dores e injustiças do ser humano.” Relembra com carinho um dos ensinamentos paternos que carrega até hoje: “Você deve entrar numa choupana sem a ninguém humilhar e num palácio, por ninguém ser humilhado.”

Ao ser questionado sobre o que o inspira, ele responde com a serenidade de quem encontrou propósito no caminho: “Minhas filhas, meus netos, minha mãe, meu pai, minha companheira, meus ancestrais. E meu povo Xavante. Tudo o que vale a pena, e até o que ainda não vivi.”

E se pudesse dar um conselho ao Luciano de dez anos atrás? “Vai na fé!”, ele diria. Porque, como aprendeu no cerrado e levou para o cinema, a fé — seja na arte, nas pessoas ou no mistério da vida — é o que mantém acesa a chama que move o sonho.