O número de feminicídios registrados no Brasil cresce de forma alarmante. Somente no primeiro semestre de 2025, os dados mostram uma escalada assustadora. Diante disso, surgem perguntas cruéis: por que isso acontece? Por que tantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos? Falta de coragem? Vergonha? Gostam de sofrer?
A verdade é que, na grande maioria dos casos, a violência não começa com o tapa. Ela começa no psicológico. No emocional. Nas pequenas manipulações, nas palavras que machucam e nos gestos que diminuem. As mulheres que permanecem em relações abusivas não o fazem por escolha. Ficam porque estão presas — não por correntes, mas por medo, dependência, culpa e destruição emocional.
Eu falo com conhecimento de causa. Sou uma sobrevivente.
Não tenho vergonha da minha história. Hoje, consigo olhar pra trás e ajudar outras mulheres que, como eu um dia, não têm forças para sair. Minha história começou como um conto de fadas: um homem gentil, responsável, o “príncipe encantado” que qualquer mulher sonharia. Durante os três primeiros anos, nada — absolutamente nada — indicava o que viria. Até a minha primeira gestação.
Quando o médico disse “é uma menina”, o príncipe desapareceu. No lugar dele, nasceu o monstro.
Foram 13 anos de um relacionamento que parecia eterno. Três anos de calmaria seguidos por uma tempestade que nunca mais cessou. O agressor, antes amoroso, se revelou controlador, violento e cruel. Por trás dele, uma mãe possessiva, incapaz de aceitar que o “filhinho” estivesse com uma mulher mais velha e de origem humilde. Ela conhecia as fraquezas dele e as usou como arma.
Ele, sem personalidade própria, se deixava manipular. Eu, com feridas emocionais antigas, me tornei presa fácil. Ele me fez acreditar que eu não valia nada — e eu acreditei.
É fácil julgar de fora. “Você gostava de apanhar.” “Não saiu porque não quis.” “Faltou vergonha na cara.”
Mas quem nunca viveu um relacionamento abusivo não faz ideia do que é estar nesse abismo emocional. É um ciclo que destrói, suga e anula. A mulher deixa de ser quem é, passa a viver no automático, tentando agradar para evitar o próximo ataque.
Hoje, livre, eu entendo: ninguém escolhe ser vítima. O agressor se constrói em silêncio, mina a autoestima, isola, humilha e domina — até que resta apenas o medo.
E é por isso que falo. Falo porque sobrevivi.
Falo porque quero que outras mulheres saibam que existe saída.
Falo porque o silêncio mata, e a palavra liberta.
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Essa é a minha história.
E é também um grito por todas as que ainda não conseguiram contar a delas.