

Início de uma vocação
Em 1979, um jovem estudante de Jornalismo das Faculdades Integradas Santo Thomás de Aquino (FISTA) dava seus primeiros passos no mundo da comunicação. Era Walter Farnezi, um apaixonado por rádio e jornal desde a infância, inspirado pela mãe que lia notícias e cartas para a vizinhança, mesmo sem ter escolaridade formal. “Eu lia o jornal antes dela”, lembra, rindo. “Acho que herdei dela essa vontade de comunicar.” Seu primeiro emprego foi na Rádio Sociedade Triângulo Mineiro, onde começou como locutor e dividiu espaço com lendas do rádio como Inhô Bernardino, criador dos programas “Amanhecer do Meu Sertão” e “Entardecer do Meu Sertão”, e o elegante Ataliba Guaritá Neto, com seu famoso “Grande Desfile do Dia”. Mas bastaram poucas semanas para que um dos proprietários da emissora notasse seu potencial e o transferisse para o departamento de jornalismo. Ali, entre boletins, pautas e telex, nascia um repórter.
Primeiros desafios e o salto para o jornal impresso
Com pouco tempo de rádio, Farnezi foi convidado a integrar a equipe de um grande projeto regional: um jornal diário com sede em Uberlândia e sucursais em cidades do Triângulo Mineiro. O jovem repórter dividia o tempo entre as aulas na faculdade e a redação. “Ganhava um salário mínimo, mas me sentia milionário de aprendizado”, recorda. Ele rapidamente se destacou ao dominar a operação do telex — ferramenta essencial para enviar as matérias noturnas à editoria central. Um dos momentos marcantes desse início foi a cobertura da Chacina de Conceição das Alagoas, crime brutal que vitimou nove pessoas, incluindo mulheres e crianças. A série de reportagens, assinadas por ele — algo raro na época —, marcou seu nome na imprensa local.
A emoção de noticiar a morte de Elis Regina
Em janeiro de 1982, Uberaba acordou com a notícia da morte da cantora Elis Regina. A missão de repercutir o fato na região coube a Walter. “Eu adorava a Elis. A notícia me abalou. Passei o dia inteiro no Calçadão da Arthur Machado ouvindo as pessoas e músicos locais. No fim da noite, quando terminei o texto, escrevi: ‘Sem Elis, a MPB é um Falso Brilhante.’ No outro dia, a frase virou manchete.” A homenagem não parou por aí: quatro anos depois, ele batizou sua
primeira filha de Elis, em memória da artista e do momento que consolidou sua paixão pela profissão.
O Globo: do interior para o Brasil
No meio da década de 1980, veio o salto nacional. Walter assumiu a correspondência regional do jornal O Globo, cobrindo o Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e parte do interior paulista. O trabalho era árduo e artesanal. “As matérias seguiam por telex ou por telefone, ditando frase por frase para a sucursal de Belo Horizonte. E as fotos? Eu entregava o filme no aeroporto, pedia a um passageiro pra levar até a Pampulha. O fotógrafo me esperava lá. Era o jornalismo do tempo da máquina de escrever.” Durante esse período, ele foi responsável por reportagens de repercussão nacional, especialmente sobre a epidemia da AIDS, entrevistando o médico uberabense Paulo Miguel de Mesquita, que havia acompanhado o estilista Markito, uma das primeiras vítimas da doença no Brasil.
Do jornal ao telejornalismo e às grandes obras do país
Encerrada sua fase como correspondente, Walter se aventurou no telejornalismo, em Uberlândia, numa retransmissora da Rede Bandeirantes. Logo depois, participou da fundação do Jornal de Uberaba, o primeiro diário da cidade com impressão offset — tecnologia revolucionária para a época. Pouco tempo depois, foi convidado pelo próprio Paulo Mesquita, já então presidente da estatal Fosfértil, para integrar a assessoria de comunicação da empresa. “Foram três anos intensos, com aprendizado e convivência com grandes nomes da comunicação institucional”, conta. Em 1991, o destino o levou ao Rio de Janeiro, contratado pela Construtora Andrade Gutierrez para o programa de comunicação da obra da Linha Vermelha, no contexto da preparação para a ECO-92 — Conferência Mundial do Meio Ambiente. O projeto, que seria temporário, se transformou em sete anos de trabalho e rendeu seu livro “A Obra”, lançado em Uberaba décadas depois.

O impacto em Uberaba e o olhar para o desenvolvimento
Mesmo longe da cidade natal por alguns períodos, Farnezi sempre manteve o vínculo com Uberaba. Um dos trabalhos de maior orgulho foi um tabloide especial sobre a implantação da Bolsa de Arrendamento de Terras, iniciativa que impulsionou a produção agrícola no Cerrado mineiro. “Rodava o chapadão num Fiat 147, com o José Humberto Guimarães, do Banco do Brasil. Dormia e acordava pensando naquele projeto. Era o início da transformação de Uberaba em potência agrícola.” Anos depois, ele veria o resultado: Uberaba liderando exportações de grãos e soja representando quase metade do total exportado. “Talvez minha contribuição tenha sido pequena, mas ajudei a contar essa história de desenvolvimento.”
O jornalismo em Uberaba e o desafio do futuro
Com a experiência de quem viveu várias eras da comunicação, Walter é incisivo ao avaliar o cenário atual: “O jornalismo em Uberaba está estagnado, acomodado. Falta protagonismo, ousadia e independência. Muitos veículos se tornaram instrumentos de interesse de grupos. Jornalismo é debate, é participação popular, é mostrar a cidade em movimento.” Ele ressalta que o jornalismo local tem poder de transformação, desde que saiba integrar empresários, veículos e comunidade em torno de pautas de interesse coletivo.

Lições de uma vida dedicada à notícia
Para os jovens jornalistas, Farnezi deixa um recado que ecoa como um mantra: “Leiam muito e verifiquem a informação. Erro de português se perdoa; erro de informação, nunca.” E conclui com serenidade: “Se fosse começar agora, faria tudo de novo. O jornalismo me ensinou que aprender é eterno. Parafraseando Millôr Fernandes: o jornalista que exerce sua profissão até o fim da vida está sempre aprendendo — e eu adoro aprender, conhecer, saber e informar.”
Um legado de verdade e propósito
A trajetória de Walter Farnezi é mais do que uma biografia de jornalista — é um retrato do espírito de uma geração que acreditava que informar era servir à sociedade. Do telex ao smartphone, da linotipo ao digital, ele segue como exemplo de profissional que não apenas registrou a história de Uberaba, mas ajudou a escrevê-la. “Jamais reter a informação”, diz ele. Essa talvez seja sua frase mais marcante — e o lema que resume uma vida inteira dedicada a
contar o que realmente importa: a verdade.
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