Existem bandas que nascem de um ensaio. Outras, de um grito. O Córtex, de Uberaba, veio dos dois. Surgiu em 2012 como quem chuta as portas do tédio, com pegada hardcore e espírito de porão, fazendo covers de Ratos de Porão e gritando “HC” com a fome de quem precisava ser ouvido. Mas o tempo – esse grande produtor musical da vida – tratou de lapidar o som, as ideias e a identidade. Hoje, o grupo é mais que uma banda: é uma experiência sonora que mistura peso, reflexão e resistência.
Bruno Rodrigues, vocalista e fundador, descreve o Córtex com a honestidade crua de quem viveu o subsolo cultural. “A gente não consegue se definir num nicho. Fazemos o som que gostamos, às vezes mais pesado, às vezes não. Mantivemos a essência e as letras reflexivas, com o intuito de conscientizar o máximo possível sobre diversas coisas, tanto pessoais quanto sociais.”
Essa postura é o coração do rock uberabense — inquieto, multifacetado e, acima de tudo, sincero.
As raízes e a veia do New Metal
Bruno confessa que o rock entrou na vida dele ainda na adolescência, com Mamonas Assassinas abrindo a porta da irreverência. Mas foi quando a prima Nelyne apresentou Evanescence, Slipknot, Linkin Park e System of a Down que o DNA sonoro dele realmente se formou. “Até hoje minhas maiores influências são do New Metal”, diz.
A formação inicial do Córtex foi uma mistura potente. O guitarrista Guilherme trazia o grunge, o baterista se inspirava no metalcore, o baixista no reggae e Project46 ou Sepultura completavam o tempero. Daí nasceu o som híbrido que marca a banda até hoje — um caldeirão de energia e identidade.
Uberaba, palco que pulsa
Muita gente diz que o rock morreu. Bruno discorda. “A cena em Uberaba ainda é muito forte, apesar de não aparecer tanto. Tem galera nova, galera das antigas e todo mundo ainda ativo de alguma forma.” Ele cita o Black Bantera, que levou o nome de Uberaba ao mundo, e o Elmíro com o Ópera, como exemplos da força criativa regional.
É verdade: o Triângulo Mineiro tem sido uma espécie de refúgio para bandas autorais. Mesmo longe dos grandes eixos, há uma teimosia bonita em quem insiste em fazer som. E essa teimosia é resistência.
De shows marcantes a lições da estrada
Quando questionado sobre o show mais marcante, Bruno não hesita: “Foi no Dexter Pub, em 2013. Conseguimos levar uma galera numa terça-feira. Não sei explicar, mas aquele show sempre me vem à mente quando penso em uma apresentação foda.”
E nem tudo são riffs e aplausos. A banda também carrega histórias de bastidor — como o “maluco” que prometeu financiar o primeiro show, sumiu e deixou o grupo com a conta. “Aprendemos uma lição pra vida”, ri Bruno. É o tipo de história que toda banda underground carrega no setlist da experiência.
Criação e propósito
Bruno escreve letras desde moleque. “Pra mim, era poesia. Quando surgiu o Córtex, percebi que podia falar com as pessoas através das músicas.” O processo é leve e orgânico — as bases nascem dos instrumentistas, e as letras se encaixam naturalmente. “A química sempre foi foda.”
E é nessa química que mora o segredo da longevidade. O Córtex não faz som pra agradar: faz pra dizer algo.
Rock: ainda resistência?
Quando pergunto se o rock ainda é resistência, Bruno solta uma resposta que poderia virar verso:
“O rock precisa ser resistência. É progressista, acolhedor, o lugar onde os diferentes se tornam iguais. O rock é diversidade, é saber que toda voz merece ser ouvida, mesmo que às vezes a gente berre.”
No mundo plastificado de hoje, essa é uma das frases mais sinceras que se pode dizer.
Vida nova, planos novos
O Córtex vive um novo ciclo — nova formação, novas ideias, mesma essência. “O que não falta é vontade de fazer as coisas acontecerem”, diz Bruno. E dá pra sentir que não é conversa de bar. É promessa de quem ainda tem muito som pra gritar pro mundo.