Por Juliana Martins – Colunista de Finanças e Economia do Triângulo Notícias
Todo fim de ano, o trabalhador brasileiro vive o mesmo roteiro: recebe o tão aguardado 13º salário, suspira de alívio e, em questão de dias, o dinheiro evapora. Some entre boletos, dívidas e um ou outro presente parcelado.
É quase uma tradição nacional — o ritual do “ganhei, mas não sobrou”.
De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o 13º de 2024 colocou cerca de R$ 321 bilhões em circulação — o equivalente a 3% do PIB nacional. É um impacto considerável para a economia, mas, ironicamente, quase imperceptível no bolso da maioria.
Afinal, como movimentar tanto dinheiro e ainda terminar o mês com a conta zerada?
O Serasa Experian, em parceria com o Opinion Box, revelou que 81% dos brasileiros afirmam que vão gastar o 13º, e apenas 19% pretendem guardar ou investir. A maior parte destina o valor para pagar dívidas (31%) ou cobrir contas básicas (28%). Ou seja: o que era para ser alívio, vira apenas sobrevida.
E, se a estatística já parece dura, o comportamento explica tudo: o brasileiro não é preguiçoso — ele é, antes de tudo, pressionado. Pressionado por juros altos, por salários defasados e por uma economia que ensina a sobreviver, não a prosperar.
A economia comportamental tem um nome para esse fenômeno: contabilidade mental. O termo, proposto por Richard Thaler (1999), descreve o hábito de tratarmos o dinheiro de maneira diferente conforme a sua origem. O 13º, por exemplo, é visto como “extra”, e não como parte do planejamento anual.
E o “extra”, no Brasil, vira respiro. Vira compra adiada, dívida quitada pela metade, ou até aposta em sorteios duvidosos que prometem mudar a vida.
Afinal, esperança é o que sobra quando o planejamento falta.
Mas há um outro lado — o lado de quem decide olhar o 13º com a cabeça, e não apenas com o cansaço.
Dados da ANBIMA, em seu Raio X do Investidor Brasileiro 2025, mostram que o país já tem 59 milhões de investidores, cerca de 37% da população adulta. Ainda é pouco, mas revela um crescimento importante. E mais: entre os que investem, há um movimento lento, porém firme, de migração da poupança — a velha e amada “caderneta” — para investimentos mais inteligentes, como Tesouro Direto, CDBs e consórcios.
Ou seja, há esperança no meio do caos financeiro.
O problema é que essa esperança ainda é minoria.
O brasileiro comum não tem espaço para investir — tem dívidas, inflação, crédito caro e salário comprimido. O que sobra do 13º serve, na maioria das vezes, para tapar buracos que o Estado e o sistema financeiro insistem em deixar abertos.
E é aqui que entra a crítica: falar de investimento num país onde o trabalhador mal paga o básico é quase um ato de resistência. Ou de fé.
No fim das contas, o 13º salário revela mais do que números. Ele escancara a distância entre o que o brasileiro gostaria de fazer com o dinheiro e o que a realidade o obriga a fazer.
E, enquanto o sistema continuar ensinando a gastar o que sobra, em vez de investir no que importa, o ciclo se repetirá — dezembro após dezembro.
A boa notícia? Todo ciclo pode ser quebrado.
Planejar, investir e priorizar o futuro não é luxo — é uma escolha.
E talvez, só talvez, o verdadeiro milagre de Natal seja esse: aprender a fazer o dinheiro ficar.
Fontes: DIEESE (2024); Serasa Experian e Opinion Box (2024);
ANBIMA/Datafolha – Raio X do Investidor Brasileiro (8ª Edição, 2025);
Thaler, R. H. (1999) – Mental Accounting Matters, Journal of Behavioral Decision Making;
Banco Central do Brasil (2024).