Uberaba deu um passo decisivo — e tardio, segundo especialistas — no enfrentamento ao câncer de colo do útero. Entre agosto e novembro de 2025, a Prefeitura contabilizou 2.088 testes de DNA-HPV realizados na rede pública de saúde. O número revela avanço tecnológico, mas também escancara um desafio histórico: ainda são poucas as mulheres que realizam exames preventivos regularmente, mesmo diante de um câncer altamente evitável.
O teste de DNA-HPV, indicado para mulheres de 25 a 64 anos, é considerado mais sensível que o tradicional Papanicolau. Ele detecta a presença do vírus antes mesmo do surgimento de lesões no colo do útero, o que amplia significativamente as chances de tratamento e cura. Na prática, é atuar antes do problema virar urgência — algo que o sistema público sempre tentou, nem sempre conseguiu.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, a coleta começou em agosto em duas unidades-piloto — Beija-Flor e Volta Grande — e, a partir de outubro, foi ampliada para todas as 40 Unidades Básicas de Saúde, urbanas e rurais, envolvendo as 56 equipes da Estratégia de Saúde da Família. A expansão colocou Uberaba entre os municípios do Triângulo Mineiro que mais avançaram na adoção do exame na atenção básica.
“Com o teste de DNA-HPV conseguimos identificar alterações precocemente, o que amplia consideravelmente as possibilidades de cuidado. É fundamental que as mulheres procurem a UBS mais próxima”, afirmou a diretora de Atenção à Saúde, Aline Tristão. Ela reforça que, quando o resultado é negativo, o intervalo entre os exames pode chegar a cinco anos, o que reduz filas e traz mais conforto às pacientes.
Triângulo Mineiro ainda corre atrás
Dados do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontam que o câncer de colo do útero segue entre os mais incidentes em mulheres fora dos grandes centros urbanos. No Triângulo Mineiro, cidades como Uberlândia, Ituiutaba e Araguari também vêm reforçando ações de rastreio, mas a adesão ainda oscila, principalmente entre mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Especialistas alertam que o desafio não é apenas oferecer o exame, mas convencer a população a utilizá-lo. Tabus, falta de informação e a falsa sensação de que “não está sentindo nada” ainda afastam muitas mulheres das UBSs. E os números mostram: o diagnóstico precoce reduz drasticamente internações, cirurgias complexas e mortes evitáveis.
Em Uberaba, os casos com resultado alterado são encaminhados para acompanhamento e tratamento dentro da própria rede municipal, garantindo continuidade no cuidado — um ponto considerado estratégico para evitar abandono do tratamento.
A mensagem por trás dos números é clara: o exame evoluiu, a rede pública avançou, mas a prevenção só funciona quando a informação chega e vira atitude. Ignorar o rastreio hoje é lidar com consequências muito mais duras amanhã.