O Brasil entrou em uma nova fase demográfica e social. Em 2024, o país registrou 8,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais trabalhando, o maior número desde o início da série histórica do IBGE. Isso representa 24,4% de toda a população idosa, o equivalente a quase um em cada quatro brasileiros nessa faixa etária ainda presente no mercado de trabalho.
O crescimento vem ocorrendo de forma contínua desde 2020 e reflete uma combinação de fatores: envelhecimento acelerado da população, necessidade financeira, mudanças tecnológicas no mercado de trabalho e, sobretudo, os impactos da Reforma da Previdência, que aumentou o tempo de contribuição e dificultou o acesso a aposentadorias integrais.
Trabalho mais intenso, mas ainda pouco protegido
Apesar do aumento da presença dos idosos na economia, a informalidade domina o cenário. Mais da metade — 51,1% — trabalha por conta própria ou como empregador, com predominância de atividades autônomas sem proteção social. Apenas 17% possuem carteira assinada.
Essa vulnerabilidade previdenciária contrasta com um dado curioso: idosos ocupados receberam, em média, R$ 3.561, valor superior à média geral brasileira, hoje em R$ 3.108. Eles também registraram a menor taxa de desocupação do país: apenas 2,9%.
O problema é que o rendimento maior nem sempre significa estabilidade. Muitos permanecem trabalhando não por opção, mas por necessidade — seja para complementar renda, seja para manter-se elegível à aposentadoria completa.
Novo instrumento jurídico: autocuratela passa a valer em todo o país
Enquanto cresce o número de idosos ativos, também aumenta a preocupação com o futuro desse grupo. Em 2025, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamentou a autocuratela, um mecanismo que permite que qualquer pessoa, enquanto plenamente capaz, escolha antecipadamente quem cuidará de seus interesses pessoais, patrimoniais e de saúde caso, no futuro, perca sua capacidade de decisão.
O instrumento foi definido pelo Provimento nº 206 de 06/10/2025 e já é aceito pelo Judiciário. No último dia 29, diversas capitais participaram da “Jornada Notarial 2025 – Proteger o Futuro é Planejar o Presente”, oferecendo orientação gratuita sobre o tema. Em Minas Gerais, Belo Horizonte sediou a ação.
A autocuratela funciona como uma escritura registrada em cartório. Lá, o idoso — ou qualquer cidadão — pode indicar um ou mais curadores em ordem de preferência. Os atos ficam armazenados na CENSEC (Central Notorial dos Cartórios de Notas). Em Minas, o serviço custa R$ 70.
Mesmo assim, a decisão final sempre passará por um processo judicial de curatela, com participação do Ministério Público e análise das condições do curador indicado. A nova ferramenta, porém, obriga os juízes a consultarem previamente a vontade registrada da pessoa.
Uma sociedade que envelhece… e trabalha
A combinação desses dois movimentos — recorde de idosos no mercado e expansão da autocuratela — revela uma realidade incontornável: o Brasil envelheceu e precisa lidar com isso de forma mais estruturada.
O aumento de idosos trabalhando mostra disposição e vitalidade, mas também aponta para desigualdades previdenciárias e falta de políticas públicas adequadas. Já a ampliação da autocuratela indica que os brasileiros buscam mais controle sobre o próprio futuro, sobretudo diante do risco de perda de autonomia.
A transição demográfica brasileira deixa claro que o país precisa olhar para os idosos não apenas como estatística, mas como força ativa, produtiva e carente de proteção em um ambiente social cada vez mais complexo.