

Vestir branco na noite de Réveillon é um hábito tão comum no Brasil que muitos o repetem sem saber exatamente de onde veio. Associada à paz, renovação e bons presságios para o ano que começa, a tradição, no entanto, tem origem histórica ligada às religiões afro-brasileiras — especialmente à Umbanda e ao Candomblé — e ganhou força a partir do século passado.
A Umbanda foi fundada oficialmente em 1908, no Rio de Janeiro, e desde o início adotou o branco como vestimenta ritual. A escolha da cor não foi aleatória: o branco simboliza igualdade, neutralidade e pureza espiritual. Nos terreiros, todos os fiéis se vestiam da mesma forma, independentemente de classe social, origem ou condição econômica, reforçando a ideia de que, diante do sagrado, todos são iguais.
Com o tempo, o branco também passou a ser usado para saudar orixás específicos. Oxalá, associado à criação e à paz, tem o branco como sua principal cor. Iemanjá, orixá das águas e do mar, também é amplamente homenageada com roupas claras, especialmente no dia 31 de dezembro, quando milhares de pessoas fazem oferendas nas praias.
A popularização desse costume fora dos terreiros ocorreu principalmente entre as décadas de 1970 e 1980. A forte presença de artistas, intelectuais e produções televisivas — sobretudo nas grandes festas de Réveillon em Copacabana — ajudou a difundir os rituais afro-brasileiros como parte do imaginário coletivo da virada do ano. O branco, então, deixou de ser um símbolo exclusivamente religioso e passou a integrar o calendário cultural brasileiro.
Além da roupa branca, outros costumes foram incorporados à celebração popular, como pular sete ondas, fazer pedidos, acender velas e oferecer flores ao mar. Práticas que, embora tenham origem religiosa, hoje são reproduzidas por pessoas das mais diversas crenças — ou mesmo sem nenhuma filiação religiosa.
A discussão sobre o uso do branco por cristãos, tema que frequentemente surge nas redes sociais, também acompanha esse processo de ressignificação. Para estudiosos da cultura brasileira, o hábito já se consolidou como tradição cultural, desvinculada de obrigação religiosa, refletindo o sincretismo que marca a formação do país.
Mais do que um símbolo de fé, o branco no Réveillon tornou-se um reflexo da identidade brasileira: plural, miscigenada e profundamente influenciada por diferentes matrizes culturais.
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