

Depois de mais de cinco meses sob restrições, Uberaba encerrou nesta quinta-feira o Plano de Contingenciamento de Abastecimento de Água. Foram 153 dias de reservatórios fechados, rodízio, alertas diários e mudanças forçadas na rotina da cidade. O fim do plano ocorre após dez dias consecutivos com os reservatórios abertos, meta técnica estabelecida pela Codau. Em 2024, o período de contingência havia durado pouco mais de dois meses. Em 2025, o cenário foi outro. Mais longo, mais severo e mais simbólico.
A seca prolongada, combinada a um início de período chuvoso fraco e temperaturas historicamente altas, colocou o sistema de abastecimento sob pressão inédita. Entre outubro e dezembro de 2025, choveu quase 36 por cento menos do que no mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, o consumo disparou. Em setembro, a cidade quase atingiu 2,5 milhões de metros cúbicos de água em um único mês.
O presidente da Codau, Rui Ramos, afirma que o encerramento do plano não significa normalidade. O ideal seria manter os reservatórios acima de 70 por cento, patamar ainda distante após meses de estresse hídrico. A previsão climática para 2026 indica calor fora de época e chuvas irregulares, com longos intervalos secos alternados por pancadas intensas. Um padrão que dificulta a recuperação sustentável das reservas.
Para enfrentar esse novo normal, a Codau já constrói dois poços profundos que devem acrescentar cerca de 120 litros por segundo ao sistema. Mas a equação é clara: infraestrutura ajuda, comportamento decide. O consumo consciente deixa de ser campanha emergencial e passa a ser política de sobrevivência urbana.
Enquanto a cidade aprende a viver com menos água, outro termômetro social revela o impacto silencioso das crises prolongadas. A Farmácia Solidária de Uberaba ultrapassou meio milhão de itens dispensados apenas em 2025, com mais de 11 mil atendimentos. Criada para ampliar o acesso a medicamentos, a unidade se transformou em um elo essencial entre o sistema público e a população que não consegue esperar.
Localizada no bairro Mercês, próxima ao Hospital Regional, a Farmácia Solidária funciona como farmácia básica do SUS e também como centro de recebimento de doações. Todo medicamento passa por triagem rigorosa antes de ser distribuído gratuitamente. Desde 2017, o espaço se mantém como um símbolo prático de que saúde pública não se sustenta apenas com orçamento, mas também com engajamento comunitário.
O encerramento do racionamento e o crescimento da Farmácia Solidária apontam para a mesma realidade. Uberaba entra em uma fase em que gestão pública, clima e solidariedade passam a dividir o protagonismo. Água e remédio deixam de ser apenas serviços. Tornam se indicadores do tipo de cidade que se constrói diante de um mundo mais quente, mais instável e mais desigual.
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