

A discussão sobre o modelo de assistência ao parto em Uberlândia ganhou força após audiência pública realizada na última terça-feira (1º), na Câmara Municipal. O encontro reuniu doulas, profissionais da saúde e parlamentares, que apresentaram demandas e apontaram desafios na busca por um atendimento mais humanizado às gestantes.
A audiência foi conduzida pelas vereadoras Amanda Gondim (PSB) e Gláucia da Saúde (PL), presidentes das comissões dos Direitos da Mulher e da Saúde e Saneamento. Entre os principais pontos debatidos, esteve a necessidade de implantação do modelo nacional de humanização do parto no município, além da ampliação da atuação das doulas desde o início do pré-natal.
Durante o encontro, Amanda Gondim destacou que o tema envolve questões de saúde pública, dignidade e direito ao cuidado. A vereadora também apresentou dados que indicam fragilidades no acompanhamento gestacional, como o fato de apenas 51% das gestantes terem realizado o número mínimo de consultas de pré-natal em 2022. Outro ponto levantado foi o alto índice de cesarianas no país, que supera 60% e chega a mais de 80% na rede privada.
Representando o segmento das doulas, a presidente da Associação de Doulas do Triângulo Mineiro, Ana Cristina Porfírio, apontou lacunas no sistema local. Entre elas, a não adesão de Uberlândia a programas federais de humanização do parto e a necessidade de ajustes na gestão da saúde para ampliar o acesso e a atuação dessas profissionais.
Também foram discutidas a ausência do Plano de Parto no município — documento que orienta a gestante na escolha do tipo de parto —, a retomada de treinamentos para doulas e a ampliação da assistência, incluindo a possibilidade de partos domiciliares supervisionados como forma de desafogar o sistema de saúde.
Profissionais da área relataram desafios estruturais e operacionais. No Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, foi apontada a necessidade de aprimoramento do pré-natal e o enfrentamento da alta demanda por atendimentos. Já no Hospital Municipal, foi destacada a contribuição das doulas para o aumento dos partos normais, embora a cesariana ainda seja predominante.
Especialistas também chamaram atenção para fatores culturais. O médico ginecologista André Lanza afirmou que o Brasil ultrapassa os índices recomendados pela Organização Mundial da Saúde para cesarianas, fixados em até 15%, e destacou a existência de uma cultura consolidada em favor do procedimento cirúrgico.
Ao final da audiência, vereadores sinalizaram apoio às demandas e discutiram alternativas, como a criação de Centros de Parto Normal em Uberlândia, com possibilidade de destinação de recursos para viabilizar a proposta.
Mesmo após o debate, os pontos levantados indicam que o município ainda enfrenta desafios para avançar na construção de um modelo de assistência ao parto que garanta mais informação, autonomia e segurança às gestantes.
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