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CRISE DOS FERTILIZANTES ACENDE ALERTA PARA O AGRO E MOBILIZA UBERABA

Paralisação de unidades da Mosaic expõe impactos da escassez de enxofre, preocupa produtores rurais e reacende o debate sobre uma política nacional para o setor de fertilizantes.

12/07/2026 às 20h16
Por: Redação
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CRISE DOS FERTILIZANTES ACENDE ALERTA PARA O AGRO E MOBILIZA UBERABA

Pronto, chegamos ao ponto ansiosamente esperado e, em determinados momentos dos últimos oito meses, negado. Negados por receio do que estaria por vir, caso a crise da matéria-prima da produção de fertilizantes fosfatados atingisse o Distrito Industrial III, polo de produção nacional. Depois do encerramento de atividades e disponibilização para a venda dos ativos de duas unidades, em abril deste ano. A Mosaic não anunciou de uma vez o encerramento de atividades, em Araxá. O choque veio em pílulas estratégicas, o que é normal. Quatro meses antes de anunciar o encerramento, paralisou a produção. De dezembro até esta semana, conduziu o processo com parcimônia, respeitando mercado, comunidade envolvida e o mais forte esteio: o estoque de enxofre.

Nem tão normal

Ao mesmo tempo em que promovia reuniões com lideranças e autoridades, em Araxá, a Mosaic paralisava também sua unidade de produção em Patrocínio. Em Uberaba, o tom era que tudo corria dentro da normalidade, em que pese que essa que está entre as maiores do mundo, nunca deixou de levar a público, sobretudo ao meio interessado os problemas enfrentados da aquisição de sua principal matéria-prima para a produção do fertilizante fosfatado. E o fez com clareza, apontando não só o alto preço para a aquisição do insumo, que saiu de 80 para 500 dólares por tonelada até atingir a marca de 1.200 dólares.

Barato ficou caro

Acontece que em décadas o agronegócio se habituou a ver o enxofre como um subproduto barato da indústria de petróleo e gás. Entramos na era da transição energética e um novo competidor entrou no mercado, e o que era resíduo industrial passou a ser comercializado estrategicamente para o processamento de minerais críticos para baterias, por exemplo. E ainda, o setor de metais passou a pagar bem mais que a agricultura consegue absorver. Somado a tudo e ao mesmo tempo, veio o conflito no Oriente médio. A pressão subiu, pois o enxofre que chega ao Brasil passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.
 
Maldita guerra
 
Coincidência ou não, o anúncio para a paralização das atividades no Distrito Industrial III, em Uberaba remete ao mês de setembro. E recebe nome mais pomposo de “hibernação”. Setembro também é o mês marcado para o início do plantio na safra de 26/27. E no meio desse turbilhão muitos acreditam que tudo voltará à normalidade quando a guerra acabar. O resultado de tudo reflete em toda a cadeia do agro, pois sente as dificuldades da empresa que opera 70% da rocha fosfática no Brasil. O produtor rural se vira como pode, reduz a tecnologia por hectare nas suas lavouras e no cenário dos estoques busca socorro ao armazenar o adubo, demonstrando sua real preocupação com o plantio da próxima safra, que se inicia em setembro/outubro. Quem não conseguir comprar, vai plantar com menos adubo. E com isso, virá a queda na produtividade.

Salvar o social

Quando a Mosaic anunciou a paralização das atividades em Tapira, onde, há mais 45 anos a rocha fosfática é extraída e enviada por mineroduto de 120 quilômetros ao DI-III, em Uberaba para o beneficiamento e fabricação do fertilizante fosfatado, foi que começamos a perceber a chegada das medidas restritivas ao Complexo Uberaba. Uma decisão aguardada há, no mínimo, quatro meses por essa Coluna, que vinha alertando a comunidade sobre os caminhos e avanço da crise que atinge a produção de fertilizantes. Agora, o momento é outro, tudo foi colocado às claras e não podemos mais negar. É tempo de arregaçar mangas e entrar na luta com a empresa para salvar ativos e, o mais importante, o fator social e comunitário para o município e região.
 
Em retirada

Enquanto a Mosaic anunciava paralização de suas unidades de extração da rocha fosfática e a consequente desativação de unidades produtivas de fertilizantes fosfatados, instaladas no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba por períodos curtos e previamente definidos em planejamento, seus clientes e, sobretudo e especificamente, as operadoras que atuam em seu entorno passaram a buscar caminhos alternativos, inclusive em outras fontes do mercado. As misturadoras, instaladas ao lado da fornecedora de fosfatados, no Distrito Industrial, à margem do rio Grande, em Uberaba, buscam o seu principal insumo, cuja base é o NPK ( Nitrogênio, Fosforo e Potácio), em regiões mais distantes, como Catalão, em Goiás.
 
Outros horizontes

Assim como a Mosaic Fertilizantes do Brasil, as gigantes misturadoras, acompanham desde o início a crise do enxofre. Além do alto preço, saindo de 100 dólares para atingir 1.200 dólares a tonelada, viram a matéria-prima chegar a patamares que inviabilizam o mercado de fosfatados. A abertura de outros caminhos mais vantajosos financeiramente com o crescimento do uso do minério na produção de peças, equipamentos e acessórios no campo de metais, trouxe outros horizontes ao mercado. Com mudanças significativas e sinais dos tempos, novas tecnologias de ponta, que envolvem diretamente a transição energética em todo o mundo, cada um se vira como pode em busca de novas alternativas para aquisição de insumos e novos negócios.

Uma política Nacional

Dependente do exterior em cerca de 90% do fertilizante consumido, talvez seja mesmo a hora de o país buscar em suas jazidas a inspiração para estabelecer uma política para o fertilizante, como o faz para outros setores produtivos e sociais. No início da exploração da rocha fosfática, nas décadas de 1960 e 1970, a Petrobrás ficou com a incumbência de gerir os destinos tecnológicos, sociais e administrativos para o desenvolvimento de produção, formatando até mesmo a holding Petrofértil, agrupando cinco empresas, Fosfértil, Nitrofértil, Ultrafértil, Goiasfértil e a ICC de Santa Catarina. Uma vez privatizadas, os caminhos foram outros. Hoje até mesmo a Petrobrás está com refinarias, poços de petróleo e distribuição nas mãos de empresas privadas, vindas de outras partes do mundo. Cada um olha para seu negócio. E é assim que o agronegócio e seu amplo mundo em cadeia deveria, ao menos, dar início à reflexão visando estabelecer o domínio de uma política de fertilizante para o Brasil.

A luz que faltava

Desde a privatização da estatal Fosfértil, em 1992, a produção do fertilizante fosfatado passou mais de 35 anos sob comando de empresas privadas, que à época formavam um consórcio, reunindo Manah, Solorrico, IAP, Fertibrás, Fertiza e Takenaka. Ao longo dos anos, a composição acionária mudou significativamente, com a entrada da Bunge e, posteriormente, a aquisição pela Vale, culminando na atual Mosaic Fertilizantes.  Aproveitando e sem querer fazer trocadilho, o momento “observatório”, talvez nos conduza mais que admirar os astros, que suas luzes nos permitam a entrar em outra estratosfera até atingirmos o ideal, domínio total de nossa independência na produção do fertilizante, desenvolvendo uma política especifica para o setor.

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