

A escola do Triângulo Mineiro não é mais apenas um espaço de aprendizado. Ela virou campo de batalha silencioso entre ansiedade, telas, fome e estrada. Em Uberaba, Uberlândia e Araguari, quatro temas se cruzam e escancaram uma pergunta incômoda: que infância estamos construindo dentro das salas de aula?
De um lado, cresce o número de crianças e adolescentes medicados para “dar conta” da rotina escolar. Do outro, o celular disputa atenção com o professor. No meio disso, a merenda define se o aluno aprende com energia ou com fome. E, antes mesmo de chegar à escola, muitos enfrentam quilômetros em estradas rurais dentro de veículos que nem sempre inspiram segurança.
Não é drama. É cotidiano.
Crianças medicadas demais
A medicalização da infância deixou de ser exceção e virou parte da paisagem escolar. Remédios como metilfenidato e lisdexanfetamina, usados em casos de TDAH, passaram a circular com naturalidade entre mochilas e bilhetes escolares.
O debate não é contra tratamento. É contra o atalho. Em muitas famílias, o medicamento surge antes da avaliação pedagógica, do apoio psicopedagógico, da adaptação do método. A criança que não acompanha o ritmo vira problema químico.
Uberlândia, por exemplo, já possui protocolos municipais para dispensação desse tipo de medicamento. Isso mostra que o fenômeno é real e estruturado. O que ainda não está claro para a sociedade é quantas crianças usam, em que idade, com que acompanhamento e por quanto tempo.
A pergunta que ecoa nas escolas do Triângulo é simples e perturbadora: estamos tratando dificuldades pedagógicas com comprimidos?
Celular na escola
Em 2025, o Brasil mudou oficialmente de postura. A Lei 15.100 restringiu o uso de celulares em escolas públicas e privadas, inclusive em recreios, com exceções para uso pedagógico, acessibilidade e saúde.
Minas Gerais publicou orientações para aplicação da norma. Diretores passaram a guardar aparelhos. Professores relatam salas mais atentas. Alunos relatam ansiedade, resistência e até crises de abstinência digital.
O celular é ferramenta poderosa. Mas também é máquina de distração. Em escolas do Triângulo, relatos de professores indicam queda de indisciplina em algumas turmas, mas aumento de conflito em outras. Pais se dividem entre alívio e medo de perder contato com os filhos.
O debate deixou de ser teórico. Agora é prático. Proibir resolve? Ou é preciso educar para o uso consciente? A escola virou laboratório social de uma geração criada por telas.
Merenda escolar
Para milhares de alunos, a principal refeição do dia acontece na escola. Por isso, a merenda não é detalhe administrativo. É política pública de sobrevivência.
Em Uberaba, contratos de fornecimento já foram prorrogados e questionados. Em Uberlândia, o modelo de gestão da alimentação escolar envolve licitações complexas. Em Araguari, há chamadas públicas ligadas à agricultura familiar, como prevê o Programa Nacional de Alimentação Escolar.
O dinheiro existe. O PNAE repassa recursos federais todos os anos. Mas o que chega ao prato do aluno nem sempre corresponde ao que está no contrato.
Pais reclamam de repetição excessiva, porções pequenas, cardápios pouco atrativos. Diretores relatam dificuldade de logística. Alunos aprendem rápido a distinguir comida de verdade de comida burocrática.
A merenda é termômetro social. Quando ela falha, a desigualdade entra pela porta da escola.
Transporte escolar
Para quem vive na zona rural, a escola começa antes do portão. Começa na estrada.
Ônibus, vans e microônibus percorrem longas rotas em estradas de terra, muitas vezes esburacadas, em horários extremos. Há registros recentes de acidentes na região. Em Uberaba, decisões judiciais já suspenderam contratos de transporte rural, reacendendo o debate sobre frota, manutenção e fiscalização.
Cada contrato envolve valores altos, rotas extensas e responsabilidade direta sobre a vida de crianças. Mas a fiscalização nem sempre acompanha a complexidade do serviço.
Para muitos alunos, o cansaço começa antes da primeira aula. O risco também.
Um retrato que incomoda
Esses quatro temas se cruzam no mesmo ponto: a escola virou espelho das tensões sociais.
A criança que acorda cedo, enfrenta estrada ruim, chega cansada, come mal, disputa atenção com o celular e ainda precisa ser medicada para render não está vivendo educação. Está sobrevivendo a ela.
O Triângulo Mineiro é uma das regiões mais ricas de Minas. Produz, exporta, cresce. Mas ainda permite que sua infância atravesse salas superlotadas, ônibus precários, pratos vazios e diagnósticos apressados.
Educar não é apenas ensinar conteúdo. É garantir corpo inteiro, mente inteira, caminho seguro e tempo humano.
Quando a escola vira lugar de pressão permanente, algo saiu do trilho. E não é a criança. É o sistema que a cerca.
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