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DO ESQUADRÃO DE OURO ÀS URNAS: COMO O FUTEBOL SEMPRE FOI USADO PARA MOBILIZAR O BRASIL

Entre jingles históricos, Garrincha, Pelé, campanhas políticas e a expectativa pelo Hexa, Walter Farnesi analisa como a paixão nacional se transformou em uma poderosa ferramenta de influência e integração popular.

30/05/2026 às 19h45 Atualizada em 30/05/2026 às 20h36
Por: Redação
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DO ESQUADRÃO DE OURO ÀS URNAS: COMO O FUTEBOL SEMPRE FOI USADO PARA MOBILIZAR O BRASIL

A saga

“A Taça do Mundo é Nossa …com brasileiro não há quem possa…êta esquadrão de ouro…é bom no samba é bom no couro”…

Era para ser um jingle, virou canção comemorativa na conquista do primeiro título mundial da Seleção Canarinho. Era o início de uma saga do também aclamado pelos radialistas e cronistas esportivos esporte bretão, para mais que homenagear a região de origem e os criadores sobretudo das regras do futebol na Grã-Bretanha, enaltecer e dar um charme especial ao vocabulário criativo nas transmissões.

Esquadrão de ouro

Até 1958, o torneio mundial priorizava os destaques e revelações entre as seleções que representavam a Europa. Países da América do Sul disputando final da Copa do Mundo, nem pensar. Pois é, mas o jingle que virou marchinha de comemoração trazia a saudação perfeita para o esquadrão de ouro em evidência nos tempos em que o desenvolvimento permitiu slogans de marketing político da época como “cinquenta anos em cinco”. A expressão foi criada para resumir Plano de Metas, que consistia em um conjunto robusto de investimentos focados em cinco setores principais: energia, transporte, alimentos, indústrias de base e educação.

Raízes

Até 1970, quando outra canção marcou o momento de conquista do tricampeonato, o jingle de 1958 composto por Maugeri Neto em parceria com Victor Dagô, Lauro Müller e Maugeri Sobrinho, rodou em frequência modulada pelas ondas do rádio e tinha sua letra cantada em rodas animadas de brasileiros em festa. Criada quando a Seleção do jovem Pelé ainda disputava a semifinal, a canção já estabelecia raízes em mensagem visionária, dirigida ao resto do mundo, como “ o brasileiro lá no estrangeiro mostrou, o futebol com o é que é…ganhou a Taça do Mundo, sambando com a bola no pé”. Em uma época sem campanhas instantâneas ou estratégias modernas de marketing, foi um movimento pioneiro e brilhante.

O robô

Depois da amarga derrota para o Uruguai, em 1950, em pleno Maracanã, o futebol apresentado ao mundo, na Suécia, mostrava o que era um jogador de pernas tortas conseguir brincar com seus dribles e fazer a “a alegria do povo”. Outra expressão criada, desta vez para saudar e eternizar Mané Garrincha, que foi, ao final da partida, nas comemorações dos jogadores ainda em campo, ser literalmente caçado em campo para ser tocado e comprovado ser aquele endiabrado pernas tortas, realmente de carne e osso, como todo ser humano. Chegaram a duvidar da nossa ginga para considerar uma suposta armação sul-americana, levando para a Suécia algo inusitado, tão diferente aos comuns, como se fosse uma máquina, um robô.

Em cadeia

Em 1966, tristeza geral, que fez os brasileiros resgatarem a decepção de 1950.Não teve jingle que marcasse o momento, não teve canção que ocupasse as rodas, mas, às vésperas do início da Copa, estava formada, numa também histórica criação do rádio, a “ cadeia Verde-Amarela, Norte Sul do Brasil”. O slogan, desenvolvido pelos radialistas, ilustrava mais uma vez o que era para os brasileiros o seu maior momento de integração nacional. Perdemos a Copa em momento cheio de esperança de conquistar o Tri. Pelé se contundiu e quem apareceu e se projetou ao Mundo foi Eusébio, no comando da Seleção Portuguesa. Eusébio foi o grande carrasco da Seleção Brasileira. Ele marcou dois gols na vitória de Portugal por 3 a 1 sobre o Brasil em Goodison Park, em Liverpool, eliminando os brasileiros logo na fase de grupos.

Na telinha

A televisão já tomava conta da sala das famílias brasileiras e, diretamente do México, as imagens dos dribles de Rivelino, os gols de Jairzinho, a habilidade de um Tostão em jogar sem a bola, abrindo espaço para Pelé conduzir a Canarinho ao gol, podia serem vistos em tempo real para levar lares e praças lotadas ao delírio. “De repente é quela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão”, dizia o refrão da nova canção “Pra Frente, Brasil” um dos maiores clássicos da nossa memória esportiva. Composta por Miguel Gustavo para a Copa do Mundo de 1970, ela se tornou o grande hino da conquista do tricampeonato no México.

Oportunidades

Com uma população de 90 milhões, a empolgante canção de Miguel Gustavo ressalta no início da letra a grandiosidade dessa união com a celebre frase “noventa milhões em ação, pra frente Brasil do meu coração”. Ficou bonito, não era o “Brasil de chuteiras” de um Nelson Rodrigues, mas era o movimento de um povo que dava as mãos. O futebol, definitivamente, se tornava para os brasileiros, a partir daí, seu maior momento de entrelaçamento e integração. O esporte bretão, tão inerente a partir de então, passou também a ser usado e abusado pelos criativos da publicidade política e a carregar com frases feitas os elaborados discursos de representantes e lideranças da política. Tanto que há décadas também a Copa do Mundo coincide com eleições e a pretensa corrida de cada um a um cargo eletivo. A Legislação eleitoral é, na verdade, elaborada, construída e alinhavada conforme datas e oportunidades, no campo do esporte, nas comemorações, em datas que celebram a devoção religiosa de um povo ou a qualquer fato marcante da vida cotidiana no seio popular. Natural na arte de convencer e de iludir

Momentos

Perdendo Copas ou vencendo, como foram os anos de conquistas do Tetra e do Penta, a verdade é que os políticos sempre se valeram da ‘amarelinha’ para se aproximar do eleitor. O momento, no entanto, nesse 2026, quando os ares nos mostram que o resgate da camisa verde amarela de mãos manipuladoras para voltar ao movimento popular de integração se anuncia como ponto de marcação de que na vida política dos brasileiros também se vale de uma força popular que emoldura a sua luta pelo que lhe pertence. Em que pese engodos e tão propalados fake news, muito mais eficazes no mundo das ilusões eleitoreiras que o simples uso do verde-amarelo, da amarelinha ou mesmo da bandeira nacional como símbolo de um falso-patriotismo. Foi um momento.

A panturrilha

Falta pouco para bola rolar nos gramados norte-americanos, canadenses e mexicanos, mas o clima começa impulsionar mudanças de comportamento no dia a dia dos brasileiros. Ninguém quer derrota, nem os pessimistas, críticos, negativistas, derrotistas. O momento é de motes e aproveitamentos de todos os segmentos e organizações. No fundo, todos querem faturar, quer seja com a bola na rede ou no destaque à panturrilha de Neymar. Esse é o ponto nevrálgico, o calcanhar de Aquiles para muitos que têm a pretensão de “faturar” com o esse momento tão envolvente, de forte apelo emocional e, porque, não, afetivo em torno do esporte bretão. Que venha o Hexa, depois nos falamos. As urnas, somente em outubro.

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